O que a ausência faz?
O lusco-fusco era um período incrível na ilha; as luzes, as sombras e a quantidade de cores faziam daquele curto período um espectáculo que envolvia tudo. Queria dar um mergulho, tinha a mente num turbilhão e o mar sempre a acalmava. Assim, dando dois passos em frente, saiu para a varanda, mas a nudez travou-a.
Simplesmente, não podia ir para a rua tal como veio ao mundo.
Voltou para dentro, desiludida. Ainda mais desiludida ficou quando viu o estado, quase dantesco, em que se encontrava o quarto. Não tinha outra hipótese senão limpar tudo e, por isso, ir nadar teria de ficar para um outro dia.
Camila começou a arrumação.
Havia coisas espalhadas por todo o lado: a coberta que Maui tinha atirado pelo ar, o chapéu e os óculos de sol, que por milagre não se partiram. Havia também, junto à cama, uma das partes do biquíni, os boxers de Maui e ainda os invólucros de preservativos novos e usados. Foi colocar os usados no lixo, verbalizado os pensamentos em voz alta:
- Meu Deus! Como é que tinha tantos preservativos com ele? - Camila sentou-se na cama e passou as mãos pelo cabelo. Suspirando, continuou: - Será que sou assim tão fácil, ou serei apenas mais uma na lista? Que merda! O mais certo era ele não ter aparecido ali por acaso. Será?
O tempo foi passando e a escuridão tomou conta do quarto.
Camila levantou-se com dificuldade, vestiu qualquer coisa e continuou as arrumações. Ao fazer a cama, encontrou a parte que faltava do seu biquíni e colocou-o junto da roupa suja. Antes do jantar, ia passar na lavandaria e deixar tudo para lavar. Assim, de manhã, já teria a roupa pronta para a viagem. Quando terminou de arrumar o quarto, foi à varanda e sentou-se numa das cadeiras de praia. Sentia-se suja, não só por estar suada e ainda ter sal no corpo, mas porque se sentia usada. Talvez não tivesse motivos para isso, mas era o que sentia no momento, e essa sensação estava a ser muito difícil de gerir. Antes, achava que Maui sentia algo por ela, talvez até mais do que ela por ele. Agora já não tinha tanta certeza e era isso que a deixava mais pensativa. Estaria Camila mais envolvida do que pensava? Poderia continuar a confiar nele?
Determinada em não se deixar abalar pelo que tinha acontecido, até porque, fosse qual fosse o objectivo de Maui, tudo teve o seu consentimento. Reconhecia que, apesar das dúvidas atuais, tinha sido de facto uma tarde muito bem passada.
Ele tinha sido, tal como antes, carinhoso, atencioso e preocupado com ela.
Corou ao lembrar-se de alguns desses momentos.
Sorriu, respirou fundo e, mais tranquila, levantou-se para ir tomar banho e preparar-se para ir jantar e, claro, rever Maui. Estava pronta; o vestido branco de alças, estampado com flores azuis enormes, assentava-lhe mesmo bem. Calçou como já era hábito, as suas All-Star brancas, e saiu para a rua. Estava um pouco ansiosa, mas tentou descontrair e, antes de se dirigir à zona de refeições, levou, tal como havia determinado, toda a roupa para lavar.
Chegou ao sítio onde decorria o jantar e já estava quase toda a gente sentada. Passou o olhar e não viu Maui em lugar algum. Por muito que quisesse conversar com ele, até sentiu um certo alívio por ele não estar presente. Sentou-se num sítio mais resguardado e foi conversando com as pessoas; era engraçado ver a cara dos turistas quando percebiam que ela falava fluentemente uma série de idiomas. O seu apetite, contudo, não era dos melhores e não comia nada desde o pequeno-almoço tardio. Tinha fome, é certo. A comida era ótima, também. Mas custava-lhe imenso fazer a deglutição.
Um homem italiano de meia-idade tentava galantear Camila com uma série de piropos antigos e bem engraçados. Estava a ser uma galhofa, porque até a esposa do senhor entrava na brincadeira. Com essa distração, lá foi comendo qualquer coisa e estava também mais descontraída. Maui entrou na zona de refeições com cara de poucos amigos; estava a servir algo numa mesa e, mesmo assim, não lhe dirigiu a palavra. Não teria reparado nela? O que se teria passado? A verdade é que nem precisou de resposta: a dona Mahina surgiu vinda da cozinha e também não estava com boa cara. Será que Maui e a mãe se chatearam? Talvez aquele não fosse o melhor momento para a tal conversa, mas no dia seguinte já ia embora e poderiam não ter outra oportunidade. Enfim, o que viesse estaria bem para ela; não iria forçar nada.
Acabando a refeição, olhou em volta, mas não viu Maui nem a dona Mahina em lado nenhum. O espaço ia ficando cada vez mais vazio; os hóspedes iam-se levantando para dar um passeio nocturno ou voltavam para os seus quartos. Camila queria ir tomar um café, mas não sabia se seria boa ideia aparecer na copa, até porque poderia tê-lo pedido e bebido à mesa. A noite já ia avançada; a conversa e o ambiente foram extremamente relaxantes, mas já sabia que, por ali, o tempo parecia passar bem devagar.
Levantou-se, ajeitou o longo vestido e, procurando o telemóvel, deu-se conta de que a bolsa tinha ficado no quarto. Quando se lembrou disso, lembrou também que a escama, ou lá o que era aquilo, ainda estava lá dentro, na pequena divisória, bem lá no fundo.
Camila correu para o quarto.
Entrou, trancou a porta, acendeu a luz e foi buscar a bolsa. Despejou todo o conteúdo, que tinha sido arrumado com tanto cuidado, em cima da cama e procurou pela lâmina azul-nocturno. Lá estava ela, e o mais estranho é que parecia brilhar numa paleta de tons de azul.
Camila pegou nela com cuidado.
Um arrepio percorreu-lhe o corpo; foi tão forte que teve de se amparar para não cair. A visão ficou turva e, assim, deixou-se cair para o chão, encostou-se à cama, respirando de forma ofegante. Primeiro sentiu as mãos suadas, depois o vestido foi ficando colado ao corpo e o coração batia descompassado… Ainda pegou no telemóvel… Queria reagir, queria… mas perdeu os sentidos.
Camila acordou no meio da noite, encharcada em suor, parecia até que tinha ido tomar banho no atol. Tentou localizar-se, percebendo que estava deitada no tapete, no chão do quarto. O que teria acontecido com ela? Teria comido alguma coisa que lhe fizera mal? Então lembrou-se da sua escama. Abriu a mão e lá estava ela, ainda brilhante. Levantou-se, foi guardá-la numa caixinha, para que, quando chegasse a Oeno, no laboratório, pudesse observá-la com mais detalhe.
Pegou no telemóvel que estava no chão, apagou a luz do quarto e acendeu o candeeiro da mesinha de cabeceira. O relógio marcava quase quatro da manhã, ou seja, estivera desmaiada por umas cinco horas. Apesar disso, sentia-se bem e descansada. Reparou também que tinha umas quantas chamadas de um número desconhecido, mas que era da Polinésia, e tinha ainda duas mensagens recebidas. Clicou na primeira e leu:
“Olá Camila, sou eu, o Maui. Eu vi-te ao jantar, mas estava a trabalhar e quase não consegui sair da cozinha para ir falar contigo. Depois, quando fiquei livre já tinhas ido embora. Espero que estejas bem. Parecias tensa. Manda-me mensagem que eu vou ter contigo.”
Então ele tinha-a visto e, mesmo assim, nem um olá lhe foi dizer… mas estava a trabalhar e podia ter os seus motivos. Bom, ele tinha notado que ela estava nervosa e queria vir ter com ela… Um sorriso brotou nos lábios de Camila; já sabia o que teria acontecido se ele tivesse vindo. Riu-se corando. Clicou na segunda mensagem, enviada umas horas mais tarde:
“Olá, sou eu outra vez. Não queres falar comigo? Aconteceu alguma coisa? Tens a luz do quarto acesa faz tempo e já é muito tarde. Diz-me só se estás bem.”
Mais uma vez podia perceber toda a preocupação dele. Maui devia ter visto a luz acesa e até, quem sabe, aparecido por ali para saber se estava bem. Mas as cortinas não o deixaram ver o interior, seria isso? Enfim, era tardíssimo, não valia a pena estar a pensar nisso e também não lhe ia mandar mensagem a uma hora destas. Assim, tirou as sapatilhas, depois despiu-se, dobrou o vestido e colocou-o em cima da cama. Tirou a roupa interior e foi tomar um banho relaxante.
No momento em que vestia o pijama, ouviu algo lá fora. Foi espreitar pela beira das cortinas e o que viu deixou-a em alerta: um pequeno bote avançava ondulante no escuro da noite; a única iluminação presente era a denominada “luz de tubarão”, que ia abrindo caminho pela escuridão do atol. O homem que o manuseava parecia mesmo muito o senhor Keanu. Ficou tensa. A tal conversa que ouvira durante o passeio veio-lhe à memória. Estaria à pesca? Andaria a colocar armadilhas para polvos e caranguejos? Ou seria alguma coisa condenável?
Camila correu para apagar a luz do pequeno candeeiro.
Pegando nos binóculos que estavam na mala grande, foi observar com mais atenção o que se passava. O bote parou; já estava bem longe, quase na orla do atol. Nisto, uma lanterna pisca três vezes, cortando a escuridão. Logo depois, as luzes de um barco de pesca, muito maior, acendem-se. Alguém atira uma corda e o homem prende-a ao bote. Depois, este passa umas caixas de esferovite, que parecem pesadas, para o interior e sobe também. O barco de pesca zarpa, levando o pequeno bote a reboque. Camila voltou a olhar para as horas: eram quase cinco da manhã. Tinha um voo marcado e precisava de descansar. Assim, foi-se deitar e, apesar de tudo, acabou por adormecer rápido.
Camila acordou revigorada, apesar dos acontecimentos na noite anterior. Estava descansada e pronta para um dia que se esperava intenso e extenuante. Depois de ter ido buscar a sua roupa lavada à lavandaria, fez a mala e arrumou tudo. Quando saiu do quarto, Maui já estava à espera dela; ele deu-lhe um abraço apertado e beijou-a profundamente.
Os medos de Camila desvaneceram-se.
Juntos, de mão dada, saíram para tomar o pequeno-almoço. Ela estava feliz por ele estar ali. O ambiente entre os dois estava óptimo, mas ainda existiam perguntas a precisar de resposta; o problema era que nenhum dos dois queria quebrar o momento. Mas o tempo ia-se esgotando, dali a pouco chegaria o avião para a vir buscar, tinham mesmo de conversar. Assim, a medo, ela fez a pergunta:
- O que queres comigo Maui? Achas-me uma conquista fácil ou uma presa frágil? É isso?
- Claro que não, o que te fez pensar isso? Eu estou fascinado por ti, tu és linda e… - Ela levantou a mão para que ele parasse de falar e, cerrando os dentes, perguntou num tom recriminatório:
- Então diz-me, andas sempre com aquela quantidade imensa de preservativos na bolsa?
Exasperado, Maui passou as mãos pelos cabelos, respirou fundo e respondeu olhando no fundo dos olhos dela:
- Comprei-os quando fui a Rikitea. Não costumo andar com preservativos no bolso. Achei que estávamos a criar uma ligação forte e, depois, um homem pode sonhar. Mas, sendo sincero: tu és e foste muito mais do que alguma vez sonhei.
- Entendi, mas o que queres comigo? Já tiveste sexo…
Camila não conseguiu acabar de falar. Ouviu-se um estrondo metálico. Ela assustou-se. Tinha sido a dona Mahina que deixara cair o tabuleiro com as taças de frutas frescas. Será que ouvira a conversa?
Havia fruta e cacos de loiça por todo o lado. Maui levantou-se rápido e começou a limpar tudo com a mãe. Camila ia levantar-se também para ajudar, mas ele acenou que não com a cabeça e ela deixou-se ficar sentada. Quando terminaram de arrumar, ele pegou no lixo todo e foi despejá-lo nos contentores. Assim que Maui desapareceu da vista de ambas, dona Mahina aproximou-se de Camila, sentou-se e, pegando-lhe na mão, disse baixinho:
- Desculpe-me, mas eu ouvi parte da conversa… - Fez uma pausa, mas, clareando a voz, continuou: - Não fique constrangida, eu gosto muito da menina. Mas tivemos uma grande discussão quando ele me disse que tinha passado a tarde consigo. Eu não achei que fosse verdade… - A dona Mahina voltou a parar, como que ganhando coragem, respirou fundo e perguntou por fim: - O que a menina quer com ele? Sabe, vocês só se conheceram há um dia e pouco…
Camila percebeu, olhando diretamente nos olhos dela, que era uma mãe preocupada com o seu filho, mas não conseguiu deixar de rir. Interrompendo, explicou:
- Eu gosto muito do seu filho, mas acabei agora mesmo de lhe fazer a mesma pergunta. Não sei o que quero com ele e, na verdade, também não sei o que ele quer comigo...
Camila parou de falar porque Maui estava de volta.
Ele retomou o seu lugar à mesa e dona Mahina despediu-se de ambos, regressando aos seus afazeres. O clima entre os dois ficou um pouco estranho, mas logo Maui respondeu à pergunta que havia ficado em suspenso:
- Camila, eu não sei. Só sei que, quando estou perto de ti, fico sem reação. Estar contigo é muito bom, sinto-me bem desde o primeiro dia que te vi. O que vai acontecer agora já não sei dizer.
- Acho que nós demos passos maiores do que as pernas. Eu também gostei de ter estado contigo, mas agora vamos ficar numa situação delicada. Sabes que daqui a pouco vou embora e estaremos, depois disso, muito longe um do outro.
Quando Maui se preparava para responder, um hidroavião cruzou o céu. Camila levantou-se e olhou para as horas: faltavam dez minutos para as onze, estava atrasada! Precisava de ir ao quarto buscar a mala e a mochila, fechar a conta na pensão e, depois, arranjar alguém que a levasse ao avião. Maui foi com ela, ajudou-a a carregar a enorme mala e, no fim, também foi ele quem encerrou a conta dela na pensão. Enquanto Maui levava as coisas dela, Camila foi dizer adeus à dona Mahina e, assim que chegou à copa, ela, já sabendo que seria uma despedida, veio ao seu encontro, dando-lhe um abraço, e logo lhe disse:
- Camila, gostei imenso de a conhecer. Espero que volte um dia aqui à pensão e, mesmo que esta esteja completa, eu arranjo um lugar para si. Pode crer.
Camila agradeceu e, com lágrimas nos olhos, virou costas e foi caminhando devagar para o barco. Vinha agora a parte mais difícil: despedir-se de Maui e entrar naquele hidroavião.
Autora: Alexandra Miranda
Este romance terá continuação.


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