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segunda-feira, 16 de março de 2026

Tons de Azul - Capítulo 4

Um dia escaldante


    Indiferente aos pensamentos dela, Keanu manobrava o barco de forma precisa, contornando o recife e as rochas, apontando o barco para terra e remando de volta.

    Camila relaxava, aproveitando o sol. Já tinha reunido algum material e a sua ideia tinha sido mesmo dar um passeio para ver de perto toda a cor e diversidade ali presentes. Foi então que se lembrou, já que estava ali, podia averiguar a zona onde pensava ter visto a tal pessoa ou criatura durante a madrugada. Tocou no ombro do senhor Keanu, ignorando o cheiro a suor e a tabaco, e pediu-lhe para desviar um pouco a rota, indicando o local para onde queria ir. Ele acedeu e foram navegando para lá. 
    Quando Camila achou que estavam no local certo, pediu para o senhor Keanu parar e começou a observar tudo com atenção. Estranhou, contudo, a profundidade da área, que não era assim tão grande. Aproveitou para ir tirando fotos e filmando quando, em choque, lhe pareceu ter visto um ‘Black Tang’ (Zebrasoma rostratum), também conhecido por Cirurgião Negro. Este pequeno peixe era o principal motivo dela estar ali; todo o seu trabalho visava conhecer e estudar melhor a espécie e tentar arranjar uma forma de evitar a sua extinção. A caça desenfreada, que alimenta o mercado mundial (regulado ou não), é um dos principais motivos. A busca por um desses peixes é influenciada pelo preço a que podem chegar: um Cirurgião Negro pode estar à venda por uns incríveis três mil e quinhentos dólares (americanos), ou até mais, nas lojas da especialidade. 
    Em êxtase, Camila levantou-se abruptamente, sem acreditar na sua sorte, mas esse movimento quase fez o barco virar. O senhor Keanu, sem perceber o motivo daquela agitação, vociferou em francês:

    -    O que raio vem a ser isto? Você está louca?! Sente-se, que ainda vira o barco!

    Camila, assustada, sentou-se de imediato, mas o barco ainda adernou perigosamente e ela teve de se segurar para não cair ao mar. Depois respirou fundo, recompôs-se e falou para o senhor Keanu, num tom calmo e conciliatório:

    -    Peço imensa desculpa, não sei o que me deu. Eu não queria ter reagido assim, mas vi algo muito interessante e… bom… - Fez uma pausa, clareou a voz e, medindo bem as suas palavras, continuou: - Eu gostava muito de poder dar um mergulho, isto se não for um incómodo para si. Não quero abusar da sua boa vontade nem do seu tempo. Posso?

    O senhor Keanu bufou, puxou os remos para o interior do barco e, virando-se no banco, olhou para ela, encolhendo os ombros. De uma forma menos rude, respondeu:

    -    Eu estou por sua conta. Por mim, pode ir à vontade. Mas espero que saiba nadar e não me faça ter de me molhar para a ir buscar. 

    Camila sorriu e agradeceu com um aceno de cabeça. Mas agora vinha a parte que já não lhe agradava tanto: despir-se e ficar de biquíni à frente daquele homem. Não tinha outra hipótese. Levantou-se com cuidado, virou-se de costas e tirou os calções; depois o top, guardando tudo dentro da bolsa com os óculos de sol e o chapéu. Como não se atreveu a olhar para ele, não reparou na cara de depravado que naquele momento estava estampada no rosto de Keanu, nem na forma como ele a devorava com aquele olhar malicioso. Ainda bem. 
    Ignorando tudo aquilo, pegou na máquina fotográfica e mergulhou num salto preciso. Logo veio à superfície, nadou um pouco, treinou a respiração e então submergiu, nadando em direção ao sítio onde tinha visto o Cirurgião Negro. A falta de equipamento não podia atrapalhar o momento; precisava de o ver e de lhe tirar uma foto. Seria incrível que, no seu primeiro dia ali na Polinésia, já pudesse interagir com aquela raridade. 
    O tempo ia passando, ela nadava pelo recife de forma tranquila, tirando fotos a tudo e mais alguma coisa, mas o peixe que ela queria não aparecia. Teve de voltar à superfície para respirar. O barco estava um pouco afastado e o senhor Keanu estava de costas para ela. Tentou situar-se: aquele parecia ser o sítio da tal, “movimentação estranha” que viu durante a madrugada passada. 
    Respirou fundo e mergulhou novamente, descendo até ao fundo. Depois deixou-se estar quieta, observando o movimento dos peixes à sua volta. Até que o viu. Alegrou-se e nadou devagar em direção a ele, que se alimentava de pequenas algas bem lá no fundo. Quando estava a uma distância segura, ligou a máquina e foi filmando os movimentos e a forma como se alimentava e interagia com os outros habitantes do recife. Ele foi-se afastando e ela queria ir atrás dele, mas o ar já lhe faltava. Subiu à superfície sem tirar os olhos dele, mas depois de respirar e voltar a mergulhar, deixou de o ver. 

    Decepcionada, nadou por ali, mas não o viu mais.

    Quando já pensava desistir e regressar, reparou no que pareciam ser umas armadilhas destruídas no fundo do mar. Revoltada, mergulhou até lá e percebeu que se tratavam de armadilhas para apanhar peixes do recife. 

    Furiosa, preparou-se para emergir. 

    Contudo, algo chamou a sua atenção: um brilho estranho, do que parecia um pequeno vidro, reluzia na areia. Foi até lá e pegou nele, mas não era vidro. Não, não podia ser… Era uma escama enorme. Uma escama?! Era leve e flexível, parecia uma lâmina fina com imensos reflexos de muitos tons de azul, predominando o azul-frio ou o azul-negro. Mas Camila, não conseguia lembrar-se de nenhum peixe que tivesse escamas assim. 

    Subiu à superfície e nadou suavemente de volta para o barco. Quando se preparava para subir, ouviu partes do que parecia ser uma conversa ao telemóvel:

    -    …vou por as armadilhas mais logo. Eu já te disse que as ponho logo… não, estou com uma miúda americana… é novita, mas toda boa, dava-lhe uns amassos… ele não desconfia de nada… logo vou buscar as outras e vamos ganhar muito dinheiro.

    Camila achou muito estranha a conversa e, para não levantar suspeitas, voltou a mergulhar em silêncio. Dando a volta, emergiu de frente para o senhor Keanu, apoiou-se no barco e, a custo, conseguiu subir. Não tinha levado uma toalha, mas não fazia mal. Escondeu a escama no fundo da bolsa e rapidamente vestiu os calções e o top, que, como era óbvio, ficaram molhados.
    Depois, pediu ao senhor Keanu para regressar a terra, e ele assim fez. Quando chegaram, ela agradeceu, pagou o passeio e despediu-se, seguindo pela água em direção à pensão. 

    Estava cansada; mergulhar sem equipamento não era problema para ela, mas não deixava de ser algo muito exigente. Apesar disso, estava feliz. Sentia, contudo, a pele ressequida pelo sol e pelo sal, que se acumulava e lhe manchava a pele. Precisava de um banho e de roupa lavada.

    Camila entrou no quarto, abriu as cortinas e depois as portadas, não se cansava daquela vista.

    Começou a arrumar as coisas, tirou os calções e o top, que com o calor já estavam quase secos. Mesmo assim, foi pendurá-los lá fora. Voltou a entrar e, tirando as coisas da bolsa, pegou na máquina fotográfica; mas antes de tirar o cartão de memória, achou melhor passá-la por água doce. Assim fez e deixou-a secar, pendurada no suporte do chuveiro. Pegou no cantil e bebeu um pouco de água, no preciso momento em que alguém bateu com força na portada aberta. Camila deu um pulo e virou-se assustada para a varanda. 

(Maui aparece de surpresa no quarto de Camila)

    -    Calma, calma. Sou eu, não te queria assustar. - Disse Maui levantando as mãos num gesto apaziguador. - Desculpa aparecer assim, mas vi-te na varanda e… 

    -    Como é que apareces assim no meu quarto? Que susto! - Interrompeu Camila. - Além disso, onde está minha privacidade? Podia estar no banho, ou despida! 

    Maui, percebendo o erro, fechou o semblante, deu dois passos atrás e constrangido, admitiu:

    -    Tens razão. Desculpa-me, por favor. Eu não pensei… não queria ser intrusivo… Passei o dia a pensar em ti e…

    Camila ouviu o que Maui disse: - “Passei o dia a pensar em ti”. Ela também tinha pensado nele. E apesar da intrusão, gostou de o ver ali. Respirou fundo, recompondo-se do susto, e ao olhar bem para ele percebeu o estado em que estava: nervoso, a tremer.

    -    Olha, eu apanhei um susto do caraças. Desculpa a reação desproporcional, mas tu não devias invadir assim o quarto das pessoas... - Disse aproximando-se. Estendeu-lhe a mão. - Sabes… eu também pensei em ti. E apesar de tudo, gosto que estejas aqui.

    Ainda receoso, Maui pegou-lhe na mão e beijou-a. Primeiro nos dedos, depois virou-a, beijou a palma da mão, subindo devagar pelo braço, deixando um rasto de calor por onde passava. Camila, rendida ao momento, aproximou-se mais e encostou a cabeça ao peito dele, sentindo o descompasso do coração dele em sintonia com o seu. Maui apertou-a num abraço, e ambos deixaram extravasar todos os receios, frustrações e a falta que tinham sentido um do outro. Não sabiam quanto tempo ficaram assim, mas nenhum parecia querer abandonar aquele porto seguro.
    Quando, a medo, se afastaram, mergulharam no olhar um do outro. O beijo veio lento, delicado, mas carregado de um desejo ardente que aumentava a cada segundo. Não era a brisa delicada que os arrepiava, eram as mãos que exploravam o corpo um do outro, o toque que incendiava a pele, a proximidade que lhes roubava o fôlego, o beijo que ficava mais sedento a cada instante. 

    Camila gemeu baixinho, cerrando os olhos, enquanto Maui a puxava para mais perto, guiando-a pelo quarto com uma urgência contida. Os beijos dele desciam-lhe pelo pescoço, pelo ombro, pela pele ainda marcada pelo sal do mar. O fino tecido do biquíni já não era barreira para a exploração, podia sentir cada curva, cada detalhe do corpo dela. Sentia, apertando, os glúteos firmes de Camila e perdia-se nas suas curvas. 
    Ela não ficou atrás e num gesto rápido, pegou no cós da t-shirt preta de algodão e puxou-a para que ele a tirasse. Ele começou por tirar a bolsa de couro que tinha a tiracolo e depois, agarrou naquele pedaço de pano preto e fê-lo voar pelo quarto. Satisfeita, ela deixava as mãos percorrerem as costas dele, arranhando, sentindo os músculos, a respiração acelerada e o calor escaldante, sentindo a forma como ele a tomava para si. 
    Quando chegaram à cama, Maui afastou tudo com um só movimento e deitou Camila com cuidado, como se ela fosse algo frágil, algo precioso. O olhar percorreu-lhe o corpo, mal coberto pelo pequeno biquíni, admirando cada detalhe, cada curva. Subiu para a cama, cobrindo-a com o seu peso, e voltaram a beijar-se, um beijo profundo, sedento, que parecia querer dizer o que ainda não tinham tido coragem de confessar. 

    As mãos percorriam-lhe o corpo com uma mistura de reverência e desejo, como se estivesse a decorar cada curva, cada linha da pele dela. Ele beijava-lhe o peito, quando, sem querer, um dos seios ficou descoberto. Foi a faísca final, a ignição que acendeu o fogo de Maui. Chupando e lambendo, ia massacrando o mamilo ereto, fazendo o corpo dela arquear e tremer.

    Toda a exploração do seu corpo era feita com uma delicadeza firme.

    Camila estava a adorar, gemendo baixinho com a respiração pesada.

    Maui, então, num movimento rápido, tirou-lhe a parte de cima do biquíni. Maravilhou-se com aqueles seios perfeitos. Continuou a descer, beijando a pele salgada; o sal ardia-lhe nos lábios, mas isso não o demoveu. Chegou onde todo o prazer dela se concentrava; ela apertava as coxas, roçando uma na outra. Estava em transe.
    Percebendo o seu descontrolo, Maui levantou-se, sendo acompanhado pelo olhar de Camila, e foi tirando as finas calças de linho. O desejo dele estava bem vincado nas cuecas boxer, ela lambeu os lábios de forma inconsciente, mas a sua postura mudou, entreabriu as pernas, como que dando o consentimento final. Maui não se fez rogado; tirou aquele pequeno pedaço de pano com extrema delicadeza, enquanto ia beijando aquela pele sensível e por fim o ponto nevrálgico de todo o prazer. Enquanto se regalava, ela gemia, puxava-lhe os cabelos e tremia num ritmo cadenciado e sincronizado com a língua dele.
    O prazer que sentia era electrizante e arrebatador. Camila não aguentou mais e atingiu o clímax com extrema violência, apertando Maui que, inebriado pelo sabor dela, não conseguia parar. Ela tremia sem parar e ele, deslizando pelo corpo dela, beijou-a por fim, um beijo molhado, com sabor a desejo, a prazer e a sal. 

    Naquele quarto, inundado pela luz quente da tarde, havia uma espécie de vertigem, um chamado silencioso que puxava um para o outro, como se o mundo lá fora tivesse deixado de existir.

    Camila sentia o coração acelerado, batendo forte no peito, não pelo que tinha acabado de acontecer, mas pela forma como Maui a olhava agora. Ele era fome, era desejo, era urgência…
    Sabia que ainda não tinham terminado… Podia sentir o membro dele pulsar contra o seu corpo. Com um gesto suave, Camila empurrou-o para trás, invertendo as posições com uma naturalidade que o deixou sem fôlego. Estava em cima dele, com o corpo ainda húmido a encontrar o dele, estando separados apenas pelo tecido fino dos boxers. Ambos pulsavam de desejo e a proximidade era quase insuportável, era quente, intensa, inevitável.

    Camila levantou-se, deixando os raios de sol desenhar e rever o contorno do seu corpo despedido. Maui olhava-a como se não acreditasse que ela estava ali, assim, entregue, mas segura. Tirando o elástico que tinha no pulso, ela prendeu o cabelo, num gesto simples, mas cheio de intenção; ajoelhou-se entre as pernas de Maui, aproximando-se dele com a mesma confiança e desejo que os tinha guiado em cada passo daquela noite. 

    A respiração dele falhou.

    A dela também.

    O beijo que se seguiu não foi apressado. Foi profundo, cheio de uma intensidade que lhes roubou o fôlego e lhes incendiou o corpo. Camila deixou-se envolver, quando ele se aproximou devagar, como se temesse quebrar o encanto. 

    O toque dele era quente, firme. 

    As mãos encontraram a cintura dela, o rosto, o cabelo ainda húmido do mar. A pele de Camila arrepiava-se sob o toque dele, e Maui parecia sentir cada reação, cada tremor, como se o corpo dela lhe falasse. 
    Não sabiam se aquilo era amor, paixão ou apenas o magnetismo de dois corpos que ansiavam pelo encontro. Mas, ali, naquele instante, nada disso importava. A entrega, essa, era lenta, intensa, profunda. A cadência dos movimentos, os gemidos, os corpos unidos, eles eram um só.

    O tempo naquele quarto passava lento, mas lá fora, no entanto, avançava sem parar. 

    O sol tocava a linha do horizonte. As cortinas esvoaçavam com a brisa da tarde que invadia o quarto. Prostrados na cama, Camila e Maui respiravam de forma ofegante, com as faces ruborizadas e os corpos suados, sentindo essa brisa como um bálsamo.
    Um telemóvel tocou, mais uma vez, no quarto em completo desalinho, mas nenhum dos dois se mexeu. Pouco tempo depois, Camila rodou pela cama, levantou-se e foi caminhando até à portada aberta e, segurando uma das cortinas, ficou a olhar o mar e aquele fim de tarde incrível.
    Maui levantou um pouco a cabeça e admirou mais uma vez aquela silhueta perfeita. Levantou-se por fim e caminhou até ela, deu-lhe um beijo no ombro e, envolvendo-a pela cintura, disse baixinho:

    -    Posso saber no que estás a pensar?

    Enquanto esperava a resposta, puxou-a de forma suave para si. Envolveu-a num abraço e foi  passando os dedos de forma leve pela barriga dela. Mas Camila, contemplativa, continuava a olhar o horizonte. 

    A pergunta ecoava-lhe na cabeça, mas naquele momento só conseguia pensar no que havia acontecido ali, naquele quarto. O que tinha vivido com Maui tinha sido algo mágico e, ao mesmo tempo, uma loucura completa. Passara a tarde a fazer amor com alguém que mal conhecia, estando na Polinésia há apenas um dia. A verdade é que esse dia parecia quase uma semana, tamanhas eram as coisas que tinham acontecido. Ainda assim, que resposta poderia dar?

    Quando se preparava para responder, o telemóvel que tinha tocado anteriormente voltou a fazer-se ouvir. Maui soltou-a e foi procurar por ele no meio de toda aquela confusão: havia roupa por todo o lado e a cama estava virada do avesso. Camila, olhando por cima do ombro, reparou que ele se vestia enquanto o aparelho tocava incessantemente. Só nesse momento se deu conta que estava despida; apesar disso, deixou-se estar, olhando o pôr-do-sol lá fora. 

    O telemóvel parou de tocar, Maui atendeu a chamada, mas ela nem se apercebeu. Só quando ele parou bem na sua frente é que ela voltou a si. Maui deu-lhe um beijo leve nos lábios e disse:

    -    Tenho de ir, a minha mãe está louca! Desapareci a tarde toda e tinha coisas para fazer. Vemo-nos ao jantar?

    -    Sim. Claro. Até logo.

    Maui saiu dali apressado, nem se dando conta das curtas palavras de Camila.


Autora: Alexandra Miranda


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