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quarta-feira, 18 de março de 2026

Tons de Azul - Capítulo 5

O que a ausência faz?

    O lusco-fusco era um período incrível na ilha; as luzes, as sombras e a quantidade de cores faziam daquele curto período um espectáculo que envolvia tudo. Queria dar um mergulho, tinha a mente num turbilhão e o mar sempre a acalmava. Assim, dando dois passos em frente, saiu para a varanda, mas a nudez travou-a. 

    Simplesmente, não podia ir para a rua tal como veio ao mundo. 

    Voltou para dentro, desiludida. Ainda mais desiludida ficou quando viu o estado, quase dantesco, em que se encontrava o quarto. Não tinha outra hipótese senão limpar tudo e, por isso, ir nadar teria de ficar para um outro dia. 

    Camila começou a arrumação. 

    Havia coisas espalhadas por todo o lado: a coberta que Maui tinha atirado pelo ar, o chapéu e os óculos de sol, que por milagre não se partiram. Havia também, junto à cama, uma das partes do biquíni, os boxers de Maui e ainda os invólucros de preservativos novos e usados. Foi colocar os usados no lixo, verbalizado os pensamentos em voz alta:

    -    Meu Deus! Como é que tinha tantos preservativos com ele? - Camila sentou-se na cama e passou as mãos pelo cabelo. Suspirando, continuou: - Será que sou assim tão fácil, ou serei apenas mais uma na lista? Que merda! O mais certo era ele não ter aparecido ali por acaso. Será? 

    O tempo foi passando e a escuridão tomou conta do quarto. 

    Camila levantou-se com dificuldade, vestiu qualquer coisa e continuou as arrumações. Ao fazer a cama, encontrou a parte que faltava do seu biquíni e colocou-o junto da roupa suja. Antes do jantar, ia passar na lavandaria e deixar tudo para lavar. Assim, de manhã, já teria a roupa pronta para a viagem. Quando terminou de arrumar o quarto, foi à varanda e sentou-se numa das cadeiras de praia. Sentia-se suja, não só por estar suada e ainda ter sal no corpo, mas porque se sentia usada. Talvez não tivesse motivos para isso, mas era o que sentia no momento, e essa sensação estava a ser muito difícil de gerir. Antes, achava que Maui sentia algo por ela, talvez até mais do que ela por ele. Agora já não tinha tanta certeza e era isso que a deixava mais pensativa. Estaria Camila mais envolvida do que pensava? Poderia continuar a confiar nele?

    Determinada em não se deixar abalar pelo que tinha acontecido, até porque, fosse qual fosse o objectivo de Maui, tudo teve o seu consentimento. Reconhecia que, apesar das dúvidas atuais, tinha sido de facto uma tarde muito bem passada. 

    Ele tinha sido, tal como antes, carinhoso, atencioso e preocupado com ela.

    Corou ao lembrar-se de alguns desses momentos.

    Sorriu, respirou fundo e, mais tranquila, levantou-se para ir tomar banho e preparar-se para ir jantar e, claro, rever Maui. Estava pronta; o vestido branco de alças, estampado com flores azuis enormes, assentava-lhe mesmo bem. Calçou como já era hábito, as suas All-Star brancas, e saiu para a rua. Estava um pouco ansiosa, mas tentou descontrair e, antes de se dirigir à zona de refeições, levou, tal como havia determinado, toda a roupa para lavar.

    Chegou ao sítio onde decorria o jantar e já estava quase toda a gente sentada. Passou o olhar e não viu Maui em lugar algum. Por muito que quisesse conversar com ele, até sentiu um certo alívio por ele não estar presente. Sentou-se num sítio mais resguardado e foi conversando com as pessoas; era engraçado ver a cara dos turistas quando percebiam que ela falava fluentemente uma série de idiomas. O seu apetite, contudo, não era dos melhores e não comia nada desde o pequeno-almoço tardio. Tinha fome, é certo. A comida era ótima, também. Mas custava-lhe imenso fazer a deglutição.

    Um homem italiano de meia-idade tentava galantear Camila com uma série de piropos antigos e bem engraçados. Estava a ser uma galhofa, porque até a esposa do senhor entrava na brincadeira. Com essa distração, lá foi comendo qualquer coisa e estava também mais descontraída. Maui entrou na zona de refeições com cara de poucos amigos; estava a servir algo numa mesa e, mesmo assim, não lhe dirigiu a palavra. Não teria reparado nela? O que se teria passado? A verdade é que nem precisou de resposta: a dona Mahina surgiu vinda da cozinha e também não estava com boa cara. Será que Maui e a mãe se chatearam? Talvez aquele não fosse o melhor momento para a tal conversa, mas no dia seguinte já ia embora e poderiam não ter outra oportunidade. Enfim, o que viesse estaria bem para ela; não iria forçar nada.

    Acabando a refeição, olhou em volta, mas não viu Maui nem a dona Mahina em lado nenhum. O espaço ia ficando cada vez mais vazio; os hóspedes iam-se levantando para dar um passeio nocturno ou voltavam para os seus quartos. Camila queria ir tomar um café, mas não sabia se seria boa ideia aparecer na copa, até porque poderia tê-lo pedido e bebido à mesa. A noite já ia avançada; a conversa e o ambiente foram extremamente relaxantes, mas já sabia que, por ali, o tempo parecia passar bem devagar.

    Levantou-se, ajeitou o longo vestido e, procurando o telemóvel, deu-se conta de que a bolsa tinha ficado no quarto. Quando se lembrou disso, lembrou também que a escama, ou lá o que era aquilo, ainda estava lá dentro, na pequena divisória, bem lá no fundo. 

    Camila correu para o quarto.

    Entrou, trancou a porta, acendeu a luz e foi buscar a bolsa. Despejou todo o conteúdo, que tinha sido arrumado com tanto cuidado, em cima da cama e procurou pela lâmina azul-nocturno. Lá estava ela, e o mais estranho é que parecia brilhar numa paleta de tons de azul. 

    Camila pegou nela com cuidado.

    Um arrepio percorreu-lhe o corpo; foi tão forte que teve de se amparar para não cair. A visão ficou turva e, assim, deixou-se cair para o chão, encostou-se à cama, respirando de forma ofegante. Primeiro sentiu as mãos suadas, depois o vestido foi ficando colado ao corpo e o coração batia descompassado… Ainda pegou no telemóvel… Queria reagir, queria… mas perdeu os sentidos.

    Camila acordou no meio da noite, encharcada em suor, parecia até que tinha ido tomar banho no atol. Tentou localizar-se, percebendo que estava deitada no tapete, no chão do quarto. O que teria acontecido com ela? Teria comido alguma coisa que lhe fizera mal? Então lembrou-se da sua escama. Abriu a mão e lá estava ela, ainda brilhante. Levantou-se, foi guardá-la numa caixinha, para que, quando chegasse a Oeno, no laboratório, pudesse observá-la com mais detalhe.

    Pegou no telemóvel que estava no chão, apagou a luz do quarto e acendeu o candeeiro da mesinha de cabeceira. O relógio marcava quase quatro da manhã, ou seja, estivera desmaiada por umas cinco horas. Apesar disso, sentia-se bem e descansada. Reparou também que tinha umas quantas chamadas de um número desconhecido, mas que era da Polinésia, e tinha ainda duas mensagens recebidas. Clicou na primeira e leu:

“Olá Camila, sou eu, o Maui. Eu vi-te ao jantar, mas estava a trabalhar e quase não consegui sair da cozinha para ir falar contigo. Depois, quando fiquei livre já tinhas ido embora. Espero que estejas bem. Parecias tensa. Manda-me mensagem que eu vou ter contigo.”

    Então ele tinha-a visto e, mesmo assim, nem um olá lhe foi dizer… mas estava a trabalhar e podia ter os seus motivos. Bom, ele tinha notado que ela estava nervosa e queria vir ter com ela… Um sorriso brotou nos lábios de Camila; já sabia o que teria acontecido se ele tivesse vindo. Riu-se corando. Clicou na segunda mensagem, enviada umas horas mais tarde:

“Olá, sou eu outra vez. Não queres falar comigo? Aconteceu alguma coisa? Tens a luz do quarto acesa faz tempo e já é muito tarde. Diz-me só se estás bem.”

    Mais uma vez podia perceber toda a preocupação dele. Maui devia ter visto a luz acesa e até, quem sabe, aparecido por ali para saber se estava bem. Mas as cortinas não o deixaram ver o interior, seria isso? Enfim, era tardíssimo, não valia a pena estar a pensar nisso e também não lhe ia mandar mensagem a uma hora destas. Assim, tirou as sapatilhas, depois despiu-se, dobrou o vestido e colocou-o em cima da cama. Tirou a roupa interior e foi tomar um banho relaxante. 

    No momento em que vestia o pijama, ouviu algo lá fora. Foi espreitar pela beira das cortinas e o que viu deixou-a em alerta: um pequeno bote avançava ondulante no escuro da noite; a única iluminação presente era a denominada “luz de tubarão”, que ia abrindo caminho pela escuridão do atol. O homem que o manuseava parecia mesmo muito o senhor Keanu. Ficou tensa. A tal conversa que ouvira durante o passeio veio-lhe à memória. Estaria à pesca? Andaria a colocar armadilhas para polvos e caranguejos? Ou seria alguma coisa condenável?

    Camila correu para apagar a luz do pequeno candeeiro. 

    Pegando nos binóculos que estavam na mala grande, foi observar com mais atenção o que se passava. O bote parou; já estava bem longe, quase na orla do atol. Nisto, uma lanterna pisca três vezes, cortando a escuridão. Logo depois, as luzes de um barco de pesca, muito maior, acendem-se. Alguém atira uma corda e o homem prende-a ao bote. Depois, este passa umas caixas de esferovite, que parecem pesadas, para o interior e sobe também. O barco de pesca zarpa, levando o pequeno bote a reboque. Camila voltou a olhar para as horas: eram quase cinco da manhã. Tinha um voo marcado e precisava de descansar. Assim, foi-se deitar e, apesar de tudo, acabou por adormecer rápido.

    Camila acordou revigorada, apesar dos acontecimentos na noite anterior. Estava descansada e pronta para um dia que se esperava intenso e extenuante. Depois de ter ido buscar a sua roupa lavada à lavandaria, fez a mala e arrumou tudo. Quando saiu do quarto, Maui já estava à espera dela; ele deu-lhe um abraço apertado e beijou-a profundamente. 

    Os medos de Camila desvaneceram-se. 

    Juntos, de mão dada, saíram para tomar o pequeno-almoço. Ela estava feliz por ele estar ali. O ambiente entre os dois estava óptimo, mas ainda existiam perguntas a precisar de resposta; o problema era que nenhum dos dois queria quebrar o momento. Mas o tempo ia-se esgotando, dali a pouco chegaria o avião para a vir buscar, tinham mesmo de conversar. Assim, a medo, ela fez a pergunta:

    -    O que queres comigo Maui? Achas-me uma conquista fácil ou uma presa frágil? É isso?

    -    Claro que não, o que te fez pensar isso? Eu estou fascinado por ti, tu és linda e… - Ela  levantou a mão para que ele parasse de falar e, cerrando os dentes, perguntou num tom recriminatório:

    -    Então diz-me, andas sempre com aquela quantidade imensa de preservativos na bolsa?

    Exasperado, Maui passou as mãos pelos cabelos, respirou fundo e respondeu olhando no fundo dos olhos dela:

    -    Comprei-os quando fui a Rikitea. Não costumo andar com preservativos no bolso. Achei que estávamos a criar uma ligação forte e, depois, um homem pode sonhar. Mas, sendo sincero: tu és e foste muito mais do que alguma vez sonhei. 

    -    Entendi, mas o que queres comigo? Já tiveste sexo…

    Camila não conseguiu acabar de falar. Ouviu-se um estrondo metálico. Ela assustou-se. Tinha sido a dona Mahina que deixara cair o tabuleiro com as taças de frutas frescas. Será que ouvira a conversa?

    Havia fruta e cacos de loiça por todo o lado. Maui levantou-se rápido e começou a limpar tudo com a mãe. Camila ia levantar-se também para ajudar, mas ele acenou que não com a cabeça e ela deixou-se ficar sentada. Quando terminaram de arrumar, ele pegou no lixo todo e foi despejá-lo nos contentores. Assim que Maui desapareceu da vista de ambas, dona Mahina aproximou-se de Camila, sentou-se e, pegando-lhe na mão, disse baixinho:

-    Desculpe-me, mas eu ouvi parte da conversa… - Fez uma pausa, mas, clareando a voz, continuou: - Não fique constrangida, eu gosto muito da menina. Mas tivemos uma grande discussão quando ele me disse que tinha passado a tarde consigo. Eu não achei que fosse verdade… - A dona Mahina voltou a parar, como que ganhando coragem, respirou fundo e perguntou por fim: - O que a menina quer com ele? Sabe, vocês só se conheceram há um dia e pouco…

    Camila percebeu, olhando diretamente nos olhos dela, que era uma mãe preocupada com o seu filho, mas não conseguiu deixar de rir. Interrompendo, explicou:

    -    Eu gosto muito do seu filho, mas acabei agora mesmo de lhe fazer a mesma pergunta. Não sei o que quero com ele e, na verdade, também não sei o que ele quer comigo...

    Camila parou de falar porque Maui estava de volta. 

    Ele retomou o seu lugar à mesa e dona Mahina despediu-se de ambos, regressando aos seus afazeres. O clima entre os dois ficou um pouco estranho, mas logo Maui respondeu à pergunta que havia ficado em suspenso:

    -    Camila, eu não sei. Só sei que, quando estou perto de ti, fico sem reação. Estar contigo é muito bom, sinto-me bem desde o primeiro dia que te vi. O que vai acontecer agora já não sei dizer. 

    -    Acho que nós demos passos maiores do que as pernas. Eu também gostei de ter estado contigo, mas agora vamos ficar numa situação delicada. Sabes que daqui a pouco vou embora e estaremos, depois disso, muito longe um do outro.

    Quando Maui se preparava para responder, um hidroavião cruzou o céu. Camila levantou-se e olhou para as horas: faltavam dez minutos para as onze, estava atrasada! Precisava de ir ao quarto buscar a mala e a mochila, fechar a conta na pensão e, depois, arranjar alguém que a levasse ao avião. Maui foi com ela, ajudou-a a carregar a enorme mala e, no fim, também foi ele quem encerrou a conta dela na pensão. Enquanto Maui levava as coisas dela, Camila foi dizer adeus à dona Mahina e, assim que chegou à copa, ela, já sabendo que seria uma despedida, veio ao seu encontro, dando-lhe um abraço, e logo lhe disse:

    -    Camila, gostei imenso de a conhecer. Espero que volte um dia aqui à pensão e, mesmo que esta esteja completa, eu arranjo um lugar para si. Pode crer.

(Camila e Maui despedem-se)

    Camila agradeceu e, com lágrimas nos olhos, virou costas e foi caminhando devagar para o barco. Vinha agora a parte mais difícil: despedir-se de Maui e entrar naquele hidroavião.


Autora: Alexandra Miranda

Este romance terá continuação.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Tons de Azul - Capítulo 4

Um dia escaldante


    Indiferente aos pensamentos dela, Keanu manobrava o barco de forma precisa, contornando o recife e as rochas, apontando o barco para terra e remando de volta.

    Camila relaxava, aproveitando o sol. Já tinha reunido algum material e a sua ideia tinha sido mesmo dar um passeio para ver de perto toda a cor e diversidade ali presentes. Foi então que se lembrou, já que estava ali, podia averiguar a zona onde pensava ter visto a tal pessoa ou criatura durante a madrugada. Tocou no ombro do senhor Keanu, ignorando o cheiro a suor e a tabaco, e pediu-lhe para desviar um pouco a rota, indicando o local para onde queria ir. Ele acedeu e foram navegando para lá. 
    Quando Camila achou que estavam no local certo, pediu para o senhor Keanu parar e começou a observar tudo com atenção. Estranhou, contudo, a profundidade da área, que não era assim tão grande. Aproveitou para ir tirando fotos e filmando quando, em choque, lhe pareceu ter visto um ‘Black Tang’ (Zebrasoma rostratum), também conhecido por Cirurgião Negro. Este pequeno peixe era o principal motivo dela estar ali; todo o seu trabalho visava conhecer e estudar melhor a espécie e tentar arranjar uma forma de evitar a sua extinção. A caça desenfreada, que alimenta o mercado mundial (regulado ou não), é um dos principais motivos. A busca por um desses peixes é influenciada pelo preço a que podem chegar: um Cirurgião Negro pode estar à venda por uns incríveis três mil e quinhentos dólares (americanos), ou até mais, nas lojas da especialidade. 
    Em êxtase, Camila levantou-se abruptamente, sem acreditar na sua sorte, mas esse movimento quase fez o barco virar. O senhor Keanu, sem perceber o motivo daquela agitação, vociferou em francês:

    -    O que raio vem a ser isto? Você está louca?! Sente-se, que ainda vira o barco!

    Camila, assustada, sentou-se de imediato, mas o barco ainda adernou perigosamente e ela teve de se segurar para não cair ao mar. Depois respirou fundo, recompôs-se e falou para o senhor Keanu, num tom calmo e conciliatório:

    -    Peço imensa desculpa, não sei o que me deu. Eu não queria ter reagido assim, mas vi algo muito interessante e… bom… - Fez uma pausa, clareou a voz e, medindo bem as suas palavras, continuou: - Eu gostava muito de poder dar um mergulho, isto se não for um incómodo para si. Não quero abusar da sua boa vontade nem do seu tempo. Posso?

    O senhor Keanu bufou, puxou os remos para o interior do barco e, virando-se no banco, olhou para ela, encolhendo os ombros. De uma forma menos rude, respondeu:

    -    Eu estou por sua conta. Por mim, pode ir à vontade. Mas espero que saiba nadar e não me faça ter de me molhar para a ir buscar. 

    Camila sorriu e agradeceu com um aceno de cabeça. Mas agora vinha a parte que já não lhe agradava tanto: despir-se e ficar de biquíni à frente daquele homem. Não tinha outra hipótese. Levantou-se com cuidado, virou-se de costas e tirou os calções; depois o top, guardando tudo dentro da bolsa com os óculos de sol e o chapéu. Como não se atreveu a olhar para ele, não reparou na cara de depravado que naquele momento estava estampada no rosto de Keanu, nem na forma como ele a devorava com aquele olhar malicioso. Ainda bem. 
    Ignorando tudo aquilo, pegou na máquina fotográfica e mergulhou num salto preciso. Logo veio à superfície, nadou um pouco, treinou a respiração e então submergiu, nadando em direção ao sítio onde tinha visto o Cirurgião Negro. A falta de equipamento não podia atrapalhar o momento; precisava de o ver e de lhe tirar uma foto. Seria incrível que, no seu primeiro dia ali na Polinésia, já pudesse interagir com aquela raridade. 
    O tempo ia passando, ela nadava pelo recife de forma tranquila, tirando fotos a tudo e mais alguma coisa, mas o peixe que ela queria não aparecia. Teve de voltar à superfície para respirar. O barco estava um pouco afastado e o senhor Keanu estava de costas para ela. Tentou situar-se: aquele parecia ser o sítio da tal, “movimentação estranha” que viu durante a madrugada passada. 
    Respirou fundo e mergulhou novamente, descendo até ao fundo. Depois deixou-se estar quieta, observando o movimento dos peixes à sua volta. Até que o viu. Alegrou-se e nadou devagar em direção a ele, que se alimentava de pequenas algas bem lá no fundo. Quando estava a uma distância segura, ligou a máquina e foi filmando os movimentos e a forma como se alimentava e interagia com os outros habitantes do recife. Ele foi-se afastando e ela queria ir atrás dele, mas o ar já lhe faltava. Subiu à superfície sem tirar os olhos dele, mas depois de respirar e voltar a mergulhar, deixou de o ver. 

    Decepcionada, nadou por ali, mas não o viu mais.

    Quando já pensava desistir e regressar, reparou no que pareciam ser umas armadilhas destruídas no fundo do mar. Revoltada, mergulhou até lá e percebeu que se tratavam de armadilhas para apanhar peixes do recife. 

    Furiosa, preparou-se para emergir. 

    Contudo, algo chamou a sua atenção: um brilho estranho, do que parecia um pequeno vidro, reluzia na areia. Foi até lá e pegou nele, mas não era vidro. Não, não podia ser… Era uma escama enorme. Uma escama?! Era leve e flexível, parecia uma lâmina fina com imensos reflexos de muitos tons de azul, predominando o azul-frio ou o azul-negro. Mas Camila, não conseguia lembrar-se de nenhum peixe que tivesse escamas assim. 

    Subiu à superfície e nadou suavemente de volta para o barco. Quando se preparava para subir, ouviu partes do que parecia ser uma conversa ao telemóvel:

    -    …vou por as armadilhas mais logo. Eu já te disse que as ponho logo… não, estou com uma miúda americana… é novita, mas toda boa, dava-lhe uns amassos… ele não desconfia de nada… logo vou buscar as outras e vamos ganhar muito dinheiro.

    Camila achou muito estranha a conversa e, para não levantar suspeitas, voltou a mergulhar em silêncio. Dando a volta, emergiu de frente para o senhor Keanu, apoiou-se no barco e, a custo, conseguiu subir. Não tinha levado uma toalha, mas não fazia mal. Escondeu a escama no fundo da bolsa e rapidamente vestiu os calções e o top, que, como era óbvio, ficaram molhados.
    Depois, pediu ao senhor Keanu para regressar a terra, e ele assim fez. Quando chegaram, ela agradeceu, pagou o passeio e despediu-se, seguindo pela água em direção à pensão. 

    Estava cansada; mergulhar sem equipamento não era problema para ela, mas não deixava de ser algo muito exigente. Apesar disso, estava feliz. Sentia, contudo, a pele ressequida pelo sol e pelo sal, que se acumulava e lhe manchava a pele. Precisava de um banho e de roupa lavada.

    Camila entrou no quarto, abriu as cortinas e depois as portadas, não se cansava daquela vista.

    Começou a arrumar as coisas, tirou os calções e o top, que com o calor já estavam quase secos. Mesmo assim, foi pendurá-los lá fora. Voltou a entrar e, tirando as coisas da bolsa, pegou na máquina fotográfica; mas antes de tirar o cartão de memória, achou melhor passá-la por água doce. Assim fez e deixou-a secar, pendurada no suporte do chuveiro. Pegou no cantil e bebeu um pouco de água, no preciso momento em que alguém bateu com força na portada aberta. Camila deu um pulo e virou-se assustada para a varanda. 

(Maui aparece de surpresa no quarto de Camila)

    -    Calma, calma. Sou eu, não te queria assustar. - Disse Maui levantando as mãos num gesto apaziguador. - Desculpa aparecer assim, mas vi-te na varanda e… 

    -    Como é que apareces assim no meu quarto? Que susto! - Interrompeu Camila. - Além disso, onde está minha privacidade? Podia estar no banho, ou despida! 

    Maui, percebendo o erro, fechou o semblante, deu dois passos atrás e constrangido, admitiu:

    -    Tens razão. Desculpa-me, por favor. Eu não pensei… não queria ser intrusivo… Passei o dia a pensar em ti e…

    Camila ouviu o que Maui disse: - “Passei o dia a pensar em ti”. Ela também tinha pensado nele. E apesar da intrusão, gostou de o ver ali. Respirou fundo, recompondo-se do susto, e ao olhar bem para ele percebeu o estado em que estava: nervoso, a tremer.

    -    Olha, eu apanhei um susto do caraças. Desculpa a reação desproporcional, mas tu não devias invadir assim o quarto das pessoas... - Disse aproximando-se. Estendeu-lhe a mão. - Sabes… eu também pensei em ti. E apesar de tudo, gosto que estejas aqui.

    Ainda receoso, Maui pegou-lhe na mão e beijou-a. Primeiro nos dedos, depois virou-a, beijou a palma da mão, subindo devagar pelo braço, deixando um rasto de calor por onde passava. Camila, rendida ao momento, aproximou-se mais e encostou a cabeça ao peito dele, sentindo o descompasso do coração dele em sintonia com o seu. Maui apertou-a num abraço, e ambos deixaram extravasar todos os receios, frustrações e a falta que tinham sentido um do outro. Não sabiam quanto tempo ficaram assim, mas nenhum parecia querer abandonar aquele porto seguro.
    Quando, a medo, se afastaram, mergulharam no olhar um do outro. O beijo veio lento, delicado, mas carregado de um desejo ardente que aumentava a cada segundo. Não era a brisa delicada que os arrepiava, eram as mãos que exploravam o corpo um do outro, o toque que incendiava a pele, a proximidade que lhes roubava o fôlego, o beijo que ficava mais sedento a cada instante. 

    Camila gemeu baixinho, cerrando os olhos, enquanto Maui a puxava para mais perto, guiando-a pelo quarto com uma urgência contida. Os beijos dele desciam-lhe pelo pescoço, pelo ombro, pela pele ainda marcada pelo sal do mar. O fino tecido do biquíni já não era barreira para a exploração, podia sentir cada curva, cada detalhe do corpo dela. Sentia, apertando, os glúteos firmes de Camila e perdia-se nas suas curvas. 
    Ela não ficou atrás e num gesto rápido, pegou no cós da t-shirt preta de algodão e puxou-a para que ele a tirasse. Ele começou por tirar a bolsa de couro que tinha a tiracolo e depois, agarrou naquele pedaço de pano preto e fê-lo voar pelo quarto. Satisfeita, ela deixava as mãos percorrerem as costas dele, arranhando, sentindo os músculos, a respiração acelerada e o calor escaldante, sentindo a forma como ele a tomava para si. 
    Quando chegaram à cama, Maui afastou tudo com um só movimento e deitou Camila com cuidado, como se ela fosse algo frágil, algo precioso. O olhar percorreu-lhe o corpo, mal coberto pelo pequeno biquíni, admirando cada detalhe, cada curva. Subiu para a cama, cobrindo-a com o seu peso, e voltaram a beijar-se, um beijo profundo, sedento, que parecia querer dizer o que ainda não tinham tido coragem de confessar. 

    As mãos percorriam-lhe o corpo com uma mistura de reverência e desejo, como se estivesse a decorar cada curva, cada linha da pele dela. Ele beijava-lhe o peito, quando, sem querer, um dos seios ficou descoberto. Foi a faísca final, a ignição que acendeu o fogo de Maui. Chupando e lambendo, ia massacrando o mamilo ereto, fazendo o corpo dela arquear e tremer.

    Toda a exploração do seu corpo era feita com uma delicadeza firme.

    Camila estava a adorar, gemendo baixinho com a respiração pesada.

    Maui, então, num movimento rápido, tirou-lhe a parte de cima do biquíni. Maravilhou-se com aqueles seios perfeitos. Continuou a descer, beijando a pele salgada; o sal ardia-lhe nos lábios, mas isso não o demoveu. Chegou onde todo o prazer dela se concentrava; ela apertava as coxas, roçando uma na outra. Estava em transe.
    Percebendo o seu descontrolo, Maui levantou-se, sendo acompanhado pelo olhar de Camila, e foi tirando as finas calças de linho. O desejo dele estava bem vincado nas cuecas boxer, ela lambeu os lábios de forma inconsciente, mas a sua postura mudou, entreabriu as pernas, como que dando o consentimento final. Maui não se fez rogado; tirou aquele pequeno pedaço de pano com extrema delicadeza, enquanto ia beijando aquela pele sensível e por fim o ponto nevrálgico de todo o prazer. Enquanto se regalava, ela gemia, puxava-lhe os cabelos e tremia num ritmo cadenciado e sincronizado com a língua dele.
    O prazer que sentia era electrizante e arrebatador. Camila não aguentou mais e atingiu o clímax com extrema violência, apertando Maui que, inebriado pelo sabor dela, não conseguia parar. Ela tremia sem parar e ele, deslizando pelo corpo dela, beijou-a por fim, um beijo molhado, com sabor a desejo, a prazer e a sal. 

    Naquele quarto, inundado pela luz quente da tarde, havia uma espécie de vertigem, um chamado silencioso que puxava um para o outro, como se o mundo lá fora tivesse deixado de existir.

    Camila sentia o coração acelerado, batendo forte no peito, não pelo que tinha acabado de acontecer, mas pela forma como Maui a olhava agora. Ele era fome, era desejo, era urgência…
    Sabia que ainda não tinham terminado… Podia sentir o membro dele pulsar contra o seu corpo. Com um gesto suave, Camila empurrou-o para trás, invertendo as posições com uma naturalidade que o deixou sem fôlego. Estava em cima dele, com o corpo ainda húmido a encontrar o dele, estando separados apenas pelo tecido fino dos boxers. Ambos pulsavam de desejo e a proximidade era quase insuportável, era quente, intensa, inevitável.

    Camila levantou-se, deixando os raios de sol desenhar e rever o contorno do seu corpo despedido. Maui olhava-a como se não acreditasse que ela estava ali, assim, entregue, mas segura. Tirando o elástico que tinha no pulso, ela prendeu o cabelo, num gesto simples, mas cheio de intenção; ajoelhou-se entre as pernas de Maui, aproximando-se dele com a mesma confiança e desejo que os tinha guiado em cada passo daquela noite. 

    A respiração dele falhou.

    A dela também.

    O beijo que se seguiu não foi apressado. Foi profundo, cheio de uma intensidade que lhes roubou o fôlego e lhes incendiou o corpo. Camila deixou-se envolver, quando ele se aproximou devagar, como se temesse quebrar o encanto. 

    O toque dele era quente, firme. 

    As mãos encontraram a cintura dela, o rosto, o cabelo ainda húmido do mar. A pele de Camila arrepiava-se sob o toque dele, e Maui parecia sentir cada reação, cada tremor, como se o corpo dela lhe falasse. 
    Não sabiam se aquilo era amor, paixão ou apenas o magnetismo de dois corpos que ansiavam pelo encontro. Mas, ali, naquele instante, nada disso importava. A entrega, essa, era lenta, intensa, profunda. A cadência dos movimentos, os gemidos, os corpos unidos, eles eram um só.

    O tempo naquele quarto passava lento, mas lá fora, no entanto, avançava sem parar. 

    O sol tocava a linha do horizonte. As cortinas esvoaçavam com a brisa da tarde que invadia o quarto. Prostrados na cama, Camila e Maui respiravam de forma ofegante, com as faces ruborizadas e os corpos suados, sentindo essa brisa como um bálsamo.
    Um telemóvel tocou, mais uma vez, no quarto em completo desalinho, mas nenhum dos dois se mexeu. Pouco tempo depois, Camila rodou pela cama, levantou-se e foi caminhando até à portada aberta e, segurando uma das cortinas, ficou a olhar o mar e aquele fim de tarde incrível.
    Maui levantou um pouco a cabeça e admirou mais uma vez aquela silhueta perfeita. Levantou-se por fim e caminhou até ela, deu-lhe um beijo no ombro e, envolvendo-a pela cintura, disse baixinho:

    Posso saber no que estás a pensar?

    Enquanto esperava a resposta, puxou-a de forma suave para si. Envolveu-a num abraço e foi  passando os dedos de forma leve pela barriga dela. Mas Camila, contemplativa, continuava a olhar o horizonte. 

    A pergunta ecoava-lhe na cabeça, mas naquele momento só conseguia pensar no que havia acontecido ali, naquele quarto. O que tinha vivido com Maui tinha sido algo mágico e, ao mesmo tempo, uma loucura completa. Passara a tarde a fazer amor com alguém que mal conhecia, estando na Polinésia há apenas um dia. A verdade é que esse dia parecia quase uma semana, tamanhas eram as coisas que tinham acontecido. Ainda assim, que resposta poderia dar?

    Quando se preparava para responder, o telemóvel que tinha tocado anteriormente voltou a fazer-se ouvir. Maui soltou-a e foi procurar por ele no meio de toda aquela confusão: havia roupa por todo o lado e a cama estava virada do avesso. Camila, olhando por cima do ombro, reparou que ele se vestia enquanto o aparelho tocava incessantemente. Só nesse momento se deu conta que estava despida; apesar disso, deixou-se estar, olhando o pôr-do-sol lá fora. 

    O telemóvel parou de tocar, Maui atendeu a chamada, mas ela nem se apercebeu. Só quando ele parou bem na sua frente é que ela voltou a si. Maui deu-lhe um beijo leve nos lábios e disse:

    -    Tenho de ir, a minha mãe está louca! Desapareci a tarde toda e tinha coisas para fazer. Vemo-nos ao jantar?

    -    Sim. Claro. Até logo.

    Maui saiu dali apressado, nem se dando conta das curtas palavras de Camila.


Autora: Alexandra Miranda


sábado, 14 de março de 2026

Tons de Azul - Capítulo 3

 Recifes de Coral


    Ele não se apercebeu, mas uma sombra movia-se no fundo, acompanhando de perto os seus movimentos, até que alguma coisa lhe agarrou o pé. Assustado, olhou em volta, quando, das profundezas, Camila emergiu bem à sua frente, rindo da cara dele:

    -    Não, não estou com medo. Tu estás? - respondeu ela, finalmente, à pergunta que havia ficado por responder. 

    Nadando de costas, afastou-se dele com uma ondulação de corpo perfeita. Ele, depois de respirar fundo, respondeu aliviado:

    -    Por momentos fiquei preocupado. Estiveste submersa imenso tempo. Mas já percebi o que querias dizer quando me disseste que te “sentias melhor e mais confortável dentro de água que fora dela”. Nadas de uma forma tão leve e graciosa… Quase como uma sereia, sério. 

    -    Uma sereia? - Camila mergulhou novamente e, numa acrobacia perfeita, emergiu bem à frente dele. - Não sabia que existiam sereias no Pacífico Sul. Segundo sei, elas são originárias da mitologia grega.

    Nadavam agora bem perto um do outro, tocando-se de vez em quando. Maui nadava bem, muito bem até, mas Camila era um caso à parte. Desconcertado, ele continuou a conversa:

    -    Pois… eu nunca vi nenhuma sereia por aqui. Tu és, sem dúvida, a mais parecida que já vi com uma. Não me digas que o teu nome está associado a algum tipo de mitologia. Uma deusa grega ou algo assim?

    -    Sim, na verdade está. Camila significa basicamente: “mensageira da terra” e, aparentemente, foi consagrada a Diana, deusa da caça, também conhecida como Ártemis. Mas também há quem diga que a sua história está ligada ao Império Romano. Mas sendo descendente de um grego, prefiro acreditar na primeira versão.

    Chegaram novamente a águas rasas, mas não se levantaram. Preferiram ficar reclinados na areia branca, ainda dentro de água, olhando as estrelas e a lua. No horizonte, uma tempestade formava-se; nuvens enormes e carregadas eram rasgadas por raios que iluminavam o céu. As luzes da pousada, ao longe, tremeluziam na ondulação. Mas, apesar disso, o silêncio imperava. 
    Camila levantou-se lentamente, ajeitou o biquíni e deixou-se cair, serena, sobre a areia ainda molhada. Apenas os pés permaneciam acariciados pela água morna. Pouco depois, uma sombra envolveu-a. Abriu os olhos e encontrou Maui inclinado sobre ela. 
    A mão esquerda de Camila subiu, devagar, até ao rosto dele, e bastou esse gesto para que Maui se aproximasse ainda mais. Os lábios tocaram-se, primeiro com hesitação e depois com uma urgência crescente, como se ambos tivessem esperado demasiado tempo por aquele momento. O beijo aprofundou-se, salgado, quente, cheio de uma fome que nenhum dos dois tentou disfarçar. 
    As mãos dele deslizavam pela lateral do corpo dela, sentindo a pele arrepiar com o seu toque. Camila arqueou-se ligeiramente, puxando-o para si, deixando-se levar pela intensidade que crescia entre eles. Os lábios de Maui percorriam o pescoço de Camila, saboreando, beijando e mordiscando sem parar. Estavam ambos perdidos nos braços um do outro, quando, do nada, um som crescente se aproximou deles. Pareciam passos. Seria um animal? Seriam pessoas? O som cessou apenas quando alguém, ao longe, perguntou:

     -    Que roupas são estas? Também está aqui uma bolsa. 

    Camila e Maui levantaram-se rapidamente e correram para junto do barco. Maui tomou a dianteira e, em francês fluente, respondeu com calma, tentando perceber se haveria problemas:

    -    Essas coisas são nossas. Desculpem ter usado o vosso barco, mas queríamos guardar as roupas quando fomos dar um mergulho. Eu sou o Maui, da pensão Chez Mahina.

    Um dos dois homens riu-se a bom rir, um riso malicioso, mas foi o outro que, olhando para Camila, que ainda se escondia um pouco atrás de Maui, disse num tom conciliador:

    -    Disseram-nos que alguém estava a mexer no barco, e afinal era verdade. Mas ao que parece não estavam a estragar nada. Ainda bem. - Entregou a Maui as roupas, as sapatilhas e a bolsa de Camila e concluiu: - Já é tarde, talvez seja melhor irem para casa.

    -    Sim, vamos vestir-nos e já vamos embora. Desculpem o incómodo e obrigado por tudo. - respondeu Maui. 

    Quando os dois homens se afastaram, eles vestiram-se e calçaram-se em silêncio. Já prontos, olharam um para o outro, e um suspiro profundo escapou da boca dela; logo depois, ele suspirou também. Aqueles homens tinham interrompido um momento tão íntimo e maravilhoso. 
    Regressaram então à pensão, e Maui fez questão de acompanhar Camila até à porta do quarto, sem saber bem como se despedir. Foi ela quem tomou a iniciativa: aproximou-se, deu-lhe um beijo terno nos lábios e disse:

    -    Gostei muito desta noite... - Fez uma pausa, lembrou-se de algo e continuou: - Amanhã ainda vou estar por aqui, o meu voo atrasou. Dorme bem e descansa.

    Virou-se e entrou no quarto, fechando a porta atrás de si. 

    Maui, com um sorriso apalermado, respirou fundo e seguiu para o seu quarto. Só conseguia pensar nela e esperava, sinceramente, sonhar com ela. A sua sereia grega.

    A tempestade, que antes se via ao longe, chegou mesmo. A madrugada trouxe chuva diluviana e os trovões ribombavam sem parar. Tudo estremecia. No quarto, Camila acordou estremunhada, encolheu-se na cama e aconchegou-se nas cobertas. Não tinha medo, mas não deixava de ser bastante assustador: os relâmpagos iluminavam o ambiente para, logo em seguida, a escuridão voltar a imperar. As sombras tornavam-se fantasmagóricas, lembrando-lhe as histórias da infância:

    -    É em noites assim que os vilões costumam atacar. - Riu-se com estes pensamentos ditos em voz alta e fechou os olhos. O sono  regressava e tomava conta dela. Quando estava quase, quase a adormecer, ouviu algo. Parecia uma melodia suave, quase imperceptível por causa da chuva, do vento e dos trovões, mas não era ilusão; podia ouvi-la. 

    Saltou da cama e correu para a rua, abrindo as portadas. O vento invadiu o quarto, molhando tudo por causa da chuva que ainda caía com força lá fora. Um relâmpago rasgou o céu exatamente no momento em que saiu para a varanda; logo depois o trovão ecoou forte, fazendo estremecer tudo à sua volta e levando-a a verbalizar:

    -    Caramba! Este caiu perto.

    Recompondo-se do susto, percebeu que dali ouvia melhor a melodia. Parecia uma canção, mas o som vinha de muito longe. Olhando o atol, tentava perceber se via algo estranho, mas sem sucesso. Estava de noite, e a chuva e o vento do temporal reduziram drasticamente a visibilidade. Só quando relampejava é que a claridade permitia ver mais longe, mas apenas por uns segundos. 
    Arrepiou-se. A roupa que usava para dormir estava encharcada; os calções e a t-shirt branca de algodão, agora colados ao corpo, deixavam ver com detalhe, pela transparência, a silhueta do seu corpo. 
    A melodia hipnótica continuava, mas decidiu voltar para dentro. A hora era tardia e não fazia sentido estar ali quando a escuridão lá fora não permitia ver nada. Enquanto fechava as portadas, um novo relâmpago iluminou a noite. No atol, lá ao longe, pôde ver por uns breves segundos o que parecia ser uma pessoa… ou seria um peixe? Não sabia bem o que era, mas era grande e parecia fazer acrobacias na água. Entretanto, e por coincidência, a melodia parou. 
    Camila ainda ficou uns minutos a olhar lá para fora, mas nem com a ajuda dos raios conseguiu ver mais alguma coisa. Fechou as portadas e, só quando voltou para dentro, reparou que aos seus pés estava uma poça de água. Descalça, atravessou o quarto, despiu-se, tomou um duche rápido, limpou tudo e deitou-se.

    Estava muito cansada e precisava de dormir.

    A verdade é que não teve muita sorte: teve uma série de sonhos esquisitos. Primeiro, navegava num pequeno barco de madeira e este, do nada, levantava voo; ela gritava, saltava borda fora e mergulhava no mar. Depois nadava na água límpida, no meio de peixes coloridos, e com ela nadavam também golfinhos e sereias. 

    Sereias?
    
    Acordou! 

    O sol invadia o quarto; estava uma manhã bem luminosa, mas já ia alta. Pelas horas, estava quase a perder o pequeno-almoço. Levantou-se, pôs protetor solar, colocou o biquíni da véspera, depois vestiu uns calções azuis-escuros e um top branco com bordados marinhos também azuis-escuros. Foi ver as sapatilhas, mas estas ainda estavam molhadas. Assim, optou por umas chinelas brancas de borracha. Lavou a cara, escovou os dentes e deu um jeito ao cabelo. Saiu do quarto ainda na esperança de estar dentro do horário da refeição. 

    Estava com fome.

    Infelizmente, quando chegou à zona de refeições, já estavam a arrumar tudo. Olhou em volta, mas não viu Maui em lugar algum. No seu íntimo, sentiu uma certa desilusão por não o ver, mas ele deveria ter assuntos a tratar. Absorvida nos seus pensamentos, nem reparou que a dona Mahina lhe acenava. Só “acordou” quando ela veio ao seu encontro e lhe falou com toda a delicadeza do mundo:

    -    Está à procura do Maui? Ele saiu agora mesmo, teve de ir resolver umas pendências a Rikitea e só deve voltar logo à tarde... - Fez uma pausa e, mudando completamente o assunto, perguntou: - Já tomou o pequeno-almoço?

    -    Não, ainda não. Parece que cheguei atrasada… - respondeu Camila, tímida e meio envergonhada. 

    Foi de imediato interrompida pela solícita dona Mahina, que prontamente disse:

    -    Claro que não, era o que faltava! Diga-me o que quer e eu vou buscar. Entretanto, enquanto espera, vá sentar-se ali junto à varanda para ver melhor a paisagem.

    Camila, assim fez. Pediu um pão com queijo, sumo de laranja e uma taça de frutas. Sentou-se à mesa, apreciando aquela paisagem maravilhosa, e aguardou. A vista do atol era incrível e a transparência da água, com o calor que já se fazia sentir, parecia chamá-la. Lembrou-se do que tinha visto durante a madrugada. 

Poderia ser alguém a fazer mergulho? Apesar de ser o mais provável, seria estranho fazê-lo durante aquela tempestade. Depois, tinha quase a certeza que, no movimento acrobático antes de desaparecer, lhe parecera ver uma cauda de peixe. Seria um tubarão? Pelo tamanho, poderia ser um tubarão-martelo ou tubarão-limão…

    As suas teorias foram interrompidas com a chegada do pequeno-almoço, colocado na mesa de forma célere, e com óptimo aspecto. Camila agradeceu, mas, tendo uma ideia repentina, logo questionou a mãe de Maui:

    -    Dona Mahina, sei que há passeios turísticos por aqui. Mas o que eu queria saber é: há algum barco para alugar? Ou alguém que me possa levar aos recifes do atol, na saída para o oceano?

    Depois de pensar um pouco, dona Mahina anuiu com a cabeça, mudando o seu semblante terno para um mais sério. Então respondeu:

    -    O senhor Kaleo. Ele tem um barco de madeira ancorado lá ao fundo... - Apontou para o local onde ele estaria. Camila, olhando nessa direção, logo o viu. Parecia o barco onde ela e Maui tinham escondido as roupas na noite anterior. - Entretanto, dona Mahina continuou: - Bom, ele é bastante reservado, não gosta nada que mexam nas coisas dele, mas eu compro-lhe peixe, entre outras coisas, e até agora não tive problemas. 

    -    Agradeço imenso a informação. Quando terminar o pequeno-almoço, vou lá para falar com ele.

    Camila aproveitou ao máximo aquele momento. Afinal, não tinha pressa e podia relaxar um pouco. Quando terminou a refeição,  pegou nas loiças e nos talheres, levando tudo até à cozinha. Dona Mahina, admirada, veio logo ao seu encontro quando a viu chegar com aquilo tudo e disse:

    -    A menina não tinha de fazer isto. Onde já se viu? Mas, já que fez, eu agradeço. Diga-me, estava tudo bom? Vai querer mais alguma coisa?

    Camila adorava o jeito da senhora. Percebia, pela postura dela, que apesar de parecer que estava a ralhar, lhe achava imensa piada, pois não parava de sorrir. Assim, sorrindo também, respondeu:

    -    Eu queria retribuir a amabilidade e também agradecer pessoalmente a atenção que teve comigo. Mas agora… bom, agora só quero um café expresso.

    Dona Mahina serviu Camila e, estando ambas encostadas à ombreira da porta, conversavam com entusiasmo sobre os afazeres da pensão e sobre como havia uma maior afluência de turistas, porque, apesar de ser inverno na Polinésia, estavam na época alta. 

    Entretanto, alguém chamou a dona da pensão que, pedindo licença, deixou Camila sozinha.
 
    Esta terminava o café, olhando o mar lá fora, quando o telemóvel satélite avisou a chegada de uma mensagem. Abriu e leu:

“Miss Tallas, Camila. Esta mensagem serve de confirmação do voo de ligação entre a ilha de Gambier e a ilha de Oeno, marcado para amanhã às 11h. Agradecemos a sua preferência pelos nossos serviços.”

    Estava tudo a regressar à normalidade. Tinha sido um pequeno percalço, apenas um dia de atraso. Acenou de longe à dona Mahina, guardou o telemóvel no bolso dos calções e foi até ao quarto buscar os óculos de sol e um chapéu. Meteu a máquina fotográfica dentro da bolsa, um cantil de água, o protector solar e um saco estanque. Tendo tudo preparado, saiu para ir procurar o senhor Kaleo.

    Caminhando pela orla marítima, ia tirando fotografias à paisagem e a alguns artrópodes que, com a sua passagem, se escondiam ou corriam. Observou e fotografou um caranguejo-eremita que, indiferente à sua presença, continuava a alimentar-se. Tirou as chinelas e guardou-as no saco estanque que havia levado para o efeito, não queria molhar as coisas que tinha na bolsa. 

    Assim, descalça, foi explorando a zona onde a água era um pouco mais funda.
 
    Andando, distraída pela fauna e pelas fotos, chegou ao barco de madeira do senhor Kaleo. Este, ondulando na água transparente, parecia flutuar. Olhou em volta, mas não via ninguém por ali. Contudo, as memórias da noite anterior fizeram-na sorrir; tinha sido bastante agradável e Maui tinha sido muito querido e preocupado com ela. Gostava dele, mas poderia tornar-se algo mais? Embora parecesse que ele estava bastante interessado, não sabia dizer ao certo. Tudo era recente, não valia a pena pensar nisso.

    Preferiu concentrar-se nos planos que havia traçado para aquele dia, planos esses que a tinham levado até ali, mas que agora não pareciam possíveis de realizar. Não tinha o número de telemóvel do senhor Kaleo, nem sabia onde ele morava. Enfim, podia ter perguntado à dona Mahina, mas na altura nem se lembrara disso. Ao que parecia, dar uma volta de barco teria de esperar. 
    Aproximou-se do barco, espreitou para o interior e não viu nada que lhe chamasse a atenção de imediato. Lá dentro estavam apenas alguns utensílios de pesca, redes e armadilhas para apanhar caranguejos e lagostas. Mas, num relance, viu o que parecia ser um arpão antigo, escondido debaixo de umas cordas. Inclinou-se, tentou tirar as cordas que o cobriam, mas sem muito sucesso, porque o barco ondulava na água e ela não queria molhar os calções. 
    Nisto, o barulho de uma mota ouviu-se ao longe, aproximando-se cada vez mais. Camila afastou-se do barco, não queria que alguém a visse a mexer onde não devia. Foi mesmo a tempo, porque a mota estava mais perto do que parecia e logo chegou ali. Um homem desceu, e Camila reconheceu-o de imediato: era um dos dois homens da noite anterior. Seria o senhor Kaleo?

    -    Boa tarde, o meu nome é Camila e estou à procura do senhor Kaleo. A dona Mahina, da pensão, disse que o poderia encontrar aqui. Eu queria saber se poderia levar-me a dar uma volta de barco pelo atol, para poder tirar umas fotos? - Perguntou, despejando toda a informação de uma só vez, sem saber bem porquê. Um pouco atrapalhada, esperou a resposta.

    -    Não, não sou o Kaleo. - Respondeu ele, rindo-se de forma grotesca, o que não agradou muito a Camila e a fez lembrar do riso malicioso que ouvira da sua parte na noite anterior. Mas logo ele continuou: - Foi o Kaleo quem me mandou vir. A dona da pensão ligou-lhe, mas ele não podia. O meu nome é Keanu e a menina quer dar um passeio, é isso? Vamos lá então.

(Senhor Keanu - 58 anos)

    O senhor Keanu passou por ela. Cheirava a tabaco e a cerveja. Começou a preparar o barco: retirou a corda que o prendia e puxou-o para mais perto da costa, para facilitar a subida. Quando se acomodaram, ele sentou-se de costas para ela, enquanto Camila, sentada na proa, observava o horizonte. Depois, ele pegou nos remos e começou a remar, primeiro devagar, depois com mais força.

(Camila passeia de barco)

    Estavam cada vez mais longe da costa e a água parecia mais escura, porque a profundidade era maior. Mas, apesar disso, ainda se conseguia ver muito bem o fundo e os peixes coloridos que nadavam por ali. Camila observava tudo com muita atenção; eram muitas as espécies que viviam em segurança no atol. Uma vez ou outra, mergulhava a máquina na água e tirava fotos. Depois, para registar o que via, filmava-se ao estilo de um documentário, identificando as espécies e o ambiente em que as encontrava.
    O calor escaldante e húmido começava a tornar-se difícil de suportar. Camila abriu a bolsa, pegou no cantil e bebeu um pouco de água. Depois, de forma educada, perguntou ao senhor Keanu se queria beber também. Este parou de remar, mas nem se dignou a olhar para ela, respondendo num tom malandro:

    -    Água?! Eu não bebo água! Mas se tiver uma cerveja, aí eu aceito. - Dito isto, riu-se alto, pegou novamente nos remos e, com braçadas firmes, levou o barco para mais perto do recife. 

    Ali, o mar já era muito mais fundo, percebia-se pelo tom azul-escuro da água, mas, mesmo assim, com atenção, ainda era possível ver o fundo. As ondas rebentavam nas rochas e nos recifes que faziam a fronteira entre o atol e o oceano. O barco ondulava cada vez mais, mas Camila não se preocupava com isso. 
    Tranquila, gravava vídeos e tirava fotos para explicar ao detalhe e documentar tudo o que via e tinha visto até ali. Depois, debruçando-se no barco espreitou para o recife. A força da maré e das ondas libertava sedimentos que alimentavam esponjas, ouriços e estrelas-do-mar, mas também anémonas e pólipos de coral, verdadeiros construtores que, em conjunto com as algas calcárias, cimentam e dão estrutura ao recife. 
    Apetecia-lhe mergulhar e ver tudo mais de perto. Só tinha um problema: não tinha como o fazer de forma totalmente segura. Faltava-lhe equipamento e, para falar a verdade, também não se sentia segura nem à vontade com aquele homem ali. Ele deixava-a desconfortável. 

    Pensou em Maui, gostava que ele estivesse ali.


Autora: Alexandra Miranda

quinta-feira, 12 de março de 2026

Tons de Azul - Capítulo 2

Saboreando a Polinésia


    Maui ficou tão entusiasmado que os seus olhos brilharam e um sorriso enorme iluminou o seu rosto. Camila só conseguia rir; era contagiante aquela alegria dele. No seu íntimo, contudo, sentia que as coisas estavam a fluir rápido de mais… Bom, pelo menos para ele. 

    Chegaram à pousada já estava mesmo a escurecer. Maui fez questão de apresentar Camila à mãe como uma amiga e, por isso, foi convidada para jantar com o resto da família. Aceitou, mas pediu licença para ir até ao quarto tomar um duche e arrumar as coisas. Passou com a dona Mahina pela recepção, pegou na chave e seguiu para o seu aposento. Entrou, largou a mochila e a mala grande e pesada na entrada e, olhando em volta, percebeu, apesar da penumbra, como o quarto era todo em madeira envernizada brilhante; tudo era acolhedor e aconchegante. Tirou as sapatilhas e as meias, depois caminhou descalça pelo chão de madeira. Abriu as portadas e a luz do crepúsculo invadiu o quarto. Saiu para a varanda, ainda descalça, e as ondas quebravam ao longe; as águas calmas e ondulantes brilhavam apesar da pouca luz. 
    Apoiou-se no varandim, inspirou o ar puro e, apesar da ansiedade crescente, sentia-se bem, estava feliz. Voltando para dentro, foi tirando a roupa pelo caminho, primeiro as calças, depois a blusa e, por fim, o sutiã e as cuequinhas. Estava nua e pronta para o tão ansiado banho, mas quando se preparava para entrar no polibã, bateram à porta. 
    Enrolou-se na enorme toalha que estava na casa de banho e foi ver quem era. Colocou o batente de segurança, abriu ligeiramente a porta e viu Maui com um envelope na mão, que, sorrindo, lhe disse:

    -    Tenho um recado para ti. Deixaram uma carta para ti na recepção pouco antes de chegares, mas a minha mãe esqueceu-se de te dar. Espero não estar a incomodar…

    Camila pôs a mão de fora para pegar no envelope e respondeu:

    -    Não incomodas nada, mas estava a preparar-me para tomar banho e não quero perder mais tempo para não me atrasar. Até já.

    Despediu-se, fechando a porta atrás de si, e ainda enrolada na toalha foi sentar-se na beira da cama enquanto abria o envelope. As mãos ficaram suadas, a respiração acelerada e estava nervosa, porque não sabia quem lhe poderia ter escrito ainda antes de chegar. 
    Inclinou-se para acender a luz do abajour; com isso, a toalha caiu, deixando os seios descobertos, mas não se importou e logo começou a ler: 

“Exma. Sra. Prof. Dra. Tallas, Camila.”

    Riu-se com este início e ficou logo muito mais descontraída, já sabia quem lhe tinha escrito. Assim, em voz baixa, continuou a leitura:

“Espero que a viagem tenha corrido bem e que estejas bem também. O voo de ligação com a ilha de Oeno só pode ser efectuado no dia depois de amanhã, à mesma hora, isto porque houve uma pequena avaria no hidroavião. 
No entanto, a montagem do abrigo e do laboratório continuará dentro dos prazos previstos e seguindo todos os planos de segurança que havíamos estabelecido.
Falamos em breve.

Ass.: Prof. Thomas :)”

    -    Com que então, um atraso... Será uma avaria grave? Espero que não… - Pensou Camila em voz alta, para logo continuar: - Ainda bem que tenho os meus colegas e amigos, Thomas e Elaine, na retaguarda a dar-me apoio. Seria bem mais difícil fazer tudo isto sem eles.

    Como não havia mais nada a fazer, senão esperar, levantou-se e pegou na toalha para finalmente ir tomar o tão esperado banho. 

    Abriu a água fria e entrou devagar no chuveiro, sentindo o impacto da água fria na pele quente. Um arrepio percorreu-lhe o corpo inteiro, não só pelo contraste térmico, mas pela intensidade de tudo o que tinha vivido naquele dia.
 
Fechou os olhos.
 
    A água escorria-lhe pelos ombros, pelas costas, pela curva suave da cintura, desenhando caminhos que a faziam estremecer. Respirou fundo, deixando que o som da água a embalasse. O coração, que ainda batia acelerado, aos poucos foi ficando mais calmo. 
    Encostou a testa à parede fresca do polibã e deixou-se ficar ali, quieta, sentindo o próprio corpo. As mãos percorriam-lhe a pele, como se quisesse memorizar cada contorno. Envolveu os seios, sentindo a sensibilidade aumentar, beliscou os mamilos duros, e um gemido escapou-lhe sem que conseguisse evitar.

Cerrou os olhos.

A respiração tornou-se mais pesada.

    Sentia o prazer crescente dos seus toques. Devagar, deslizou as mãos pela barriga, descendo mais um pouco, chegou ao lugar onde o desejo se tornava quase palpável. Tocou-se. Ahhh… Um gemido… Depois outro… Foi-se tocando, lentamente, enquanto a água continuava a cair, sem parar.

Atingiu o clímax.

    Endireitou-se, amparou-se na parede e deixou que a água fria lhe refrescasse o rosto. Lavou-se com calma, sem pressas, havia sido um dia longo, intenso e cheio de emoções. Quando terminou, desligou a água e ficou ali mais um pouco, no silêncio, sentindo-se em paz. 

    Saiu do quarto já pronta. Usava um vestido azul-esverdeado de alças finas; não era muito curto, ficava ligeiramente acima dos joelhos, mas era leve e vaporoso. Voltou a calçar as suas sapatilhas tipo bota, estilo All-Star, e colocou a bolsa, que havia comprado em Taiti, a tiracolo. O cabelo estava preso num rabo de cavalo, mais uma vez feito à pressa, pois era algo que não a preocupava. Isso ou a maquilhagem, até porque raramente usava e sentia-se muito bem com isso. 
    Caminhando pelo passadiço de madeira, seguindo o som das vozes e da música, chegou à área de refeições. Maui, ansioso, assim que a viu, veio ao seu encontro e, alegre, disse-lhe:

    -    Estás linda, muito linda… Espero que estejas com fome. A minha tia, que é a cozinheira, caprichou na ementa e vais poder deliciar-te com alguns dos nossos melhores pratos. Mas és tão magrinha que não deves comer muito. 

    Rindo-se, mas de um jeito meigo e terno, Maui pegou na mão dela e, puxando-a delicadamente, levou Camila até ao seu lugar. Sentou-se com ela e, como se já a conhecesse, esperou pela resposta que de facto chegou:

    -    Estás muito seguro de ti, não estás? - ripostou Camila, soltando a mão e olhando para Maui de um jeito intenso e intimidante. 

    Ele estremeceu atrapalhado, mas logo ela sorriu e continuou a conversa de uma forma bem animada:

    -    Pois fica sabendo que eu posso ser magrinha, mas como muito bem… Aliás, ficarias surpreendido com o que consigo comer… e sim, estou cheia de fome.

    Queres matar-me do coração ou deixar-me louco, é isso? Adoro estar perto de...

    Camila, tocando com o dedo indicador nos lábios de Maui, fê-lo parar de falar. Ficaram a olhar um para o outro, olhos nos olhos, até que ela pegou na mão dele e a apertou devagar. Mas quando ela ia dizer alguma coisa… a comida chegou.

    Alguns dos hóspedes foram-se aproximando e sentaram-se também à mesa, isto porque as mesas de jantar eram comuns e a azáfama por isso era mais que muita. Com tudo isso, eles sorriram de forma cúmplice e encolheram os ombros; tinham tido um momento tão particular e secreto que até se esqueceram, por breves instantes, de onde estavam.

(Dona Mahina - 45 anos)
 
    Logo a mãe de Maui, dona Mahina, se juntou a eles e começou a servir Camila, explicando os pratos e como era a sua confecção. Começaram a refeição por chevrettes, camarões preparados com leite de coco e acompanhados por uru, também designado por fruta-pão, assado na brasa. A combinação dos dois era óptima e Camila não se fez rogada; estava mesmo com fome. 
    Dona Mahina era uma alegria, e a maneira orgulhosa como falava das suas raízes e tradições era apaixonada e contagiante. Quando veio o prato seguinte, virou-se para a nossa bióloga e, num tom sério mas cúmplice, disse-lhe: 

    -    O próximo prato é fafaru, um peixe marinado, durante umas horas, num líquido feito através da fermentação de caranguejos e camarões… Por favor, não ligue ao cheiro. Sei que é forte, mas, aparte disso, vai gostar do sabor. O peixe vem acompanhado de batata doce e mitihue, que é um molho de leite de coco fermentado. 

    Camila ouviu atentamente e depressa percebeu o porquê do aviso. À medida que outras pessoas, e também Maui, se iam servindo, o odor começou a fazer-se sentir. Serviu-se; o cheiro era de facto muito intenso e desmotivador… Isto sendo simpática. Mas, quando provou, percebeu que não havia ligação entre o cheiro e o sabor. Era delicioso, um pouco picante, mas macio e com uma textura suave. 
    Pelas suas expressões, dona Mahina e Maui perceberam que ela tinha gostado, e não se enganaram, pois logo ela o confirmou:

    -    Isto é muito bom. O cheiro… bom, o cheiro é parecido com peixe em decomposição… Mas o sabor é mesmo muito bom. Se o resto da refeição for assim tão bom, vou precisar de ajuda para me levantar da mesa. 

    Todos riram e continuaram a refeição de forma alegre e descontraída. Camila passou o prato de carne, de nome Ma’a Tinito, que era basicamente carne de porco com feijão, legumes e macarrão. Passou porque lhe pareceu ser uma refeição “mais normal” e também porque preferia comer peixe, e sabia que ainda viria um outro antes da sobremesa. 
    O prato seguinte era de facto um prato de peixe, bem tradicional: E’ia Ota, feito com Mahi-Mahi, um peixe oriundo da Polinésia, marinado em limão e leite de coco, com uma mistura de legumes picados. Esse prato, que fazia lembrar ceviche, era incrível de tão bom.
    Dona Mahina pediu licença, saiu da mesa, recolhendo parte da louça, mas logo voltou com a sobremesa, de nome Po’e, ou Poke. Maui, chegando-se mais para Camila, disse-lhe baixinho:

    -    Vais adorar isto, eu adoro. Poke é feito com banana, mandioca, baunilha e açúcar. Leva depois uma cobertura de leite de coco. Vês? É servido em pequenos cubos e é delicioso. 

    -    Estou a ver que sim - respondeu ela, apreciando o aspecto da iguaria. Quando finalmente levou um à boca, fechou os olhos: o sabor era divinal e a textura incrível. Depois do primeiro, pegou noutro e disse: - Estou a perceber porque gostas tanto. Parecem pequenos torrões de caramelo, mas suculentos. Que bela maneira de terminar a refeição. Adorei… aliás, adorei tudo.

    -    Ainda bem que gostaste de tudo. Estava com algum receio, mas ver-te comer com tanta satisfação deixou-me contente. Queres mais alguma coisa? - perguntou Maui, atencioso, levantando-se da mesa e estendendo-lhe a mão. 

    Camila pegou na mão dele e, levantando-se também, respondeu:

    -    Um café expresso. O que queria mesmo era um café expresso quentinho. Bom… e, ao que parece, nós tínhamos um cafezinho combinado, ou quase…

    Rindo-se, Maui puxou-a delicadamente e disse:

    -    Nós temos uma máquina de café expresso. Por isso, que dizes a pegarmos no café e sairmos para dar uma volta à beira-mar?

    -    Acho uma ótima ideia. Estou a gostar imenso de estar aqui e até a minha ansiedade, que estava bastante elevada, está aos poucos a passar. - Camila respondeu. 

    Saíram dali caminhando pela beira da estrada, devagar, aproveitando a noite ainda quente e sentindo a brisa marinha. Não havia ondas, apenas uma leve ondulação e, olhando o mar que brilhava com a luz da lua, conversavam sobre as suas vidas. Contavam como tinha sido a infância, que sonhos tinham e como foi crescer em meios tão diferentes. 
    Camila contou como foi sair, aos quatro anos, dos Estados Unidos para ir para a Grécia. Foi lá que fez a primária, para depois, aos dez anos, mudar-se para a Alemanha e fazer por lá todo o secundário. Contou que a vida, por isso, não tinha sido fácil: primeiro porque deixou amigos, e depois porque as línguas de ambos os países não eram fáceis de aprender.
    Disse que, apesar de só ter vivido quatro anos na América, nunca tinha perdido a ligação ao país. Por isso, quando acabou o secundário, aos dezassete anos, decidiu inscrever-se na Universidade de Los Angeles sem que os pais soubessem. Quando os resultados saíram, e uma vez que a sua nacionalidade era de facto americana, não foi com grande surpresa que leu que a sua candidatura tinha sido aceite e que teria uma bolsa de estudo. 
    O problema, esse sim, era contar aos pais e, como ainda era menor, conseguir que aceitassem a sua mudança para lá. 

    Maui, espantado, deu duas passadas largas, passou-lhe à frente e, com um sorriso de orelha a orelha, virou-se para trás dizendo:

    -    Uau! Dá para perceber que és uma mulher decidida… Como convenceste os teus pais?

    -    Eu, quando me proponho a fazer algo, sou inabalável. Não desisto nem dou nada como garantido. Mas essa história vai ter de ficar para outro dia... - Mudando de assunto, Camila continuou: - Já devemos estar bem longe da pousada, não?

    -    Temos vindo devagar e, por isso, não estamos longe. A verdade é que a noite está bem quente. Podíamos parar por aqui e ir dar um mergulho. Que dizes?

    -    Que não tens de repetir. Vamos! - Mal tinha acabado de falar e já ela disparava a grande velocidade, deixando Maui estupefacto para trás. Recompondo-se, ele correu atrás dela. 

    Pareciam duas crianças, rindo e correndo pela orla marítima. Lá à frente, via-se, por entre a vegetação, um barco de madeira ondulando suavemente no mar, preso a uma estaca. Chegaram com as sapatilhas encharcadas, por correr na água rasa. Tiraram a roupa à pressa e deixaram tudo dentro do barco. 
    Maui não conseguiu evitar: parou para admirar toda a beleza de Camila, que, de biquíni azul-turquesa, revelava um corpo extraordinário. Apesar de magra, tinha braços e pernas bem musculados, abdominais definidos, seios cheios e glúteos firmes e bem torneados. Percebendo como ele a olhava, soltou e sacudiu o cabelo, ajeitou a parte de cima do biquíni e, virando-lhe as costas, caminhou mar adentro. A intenção não foi provocá-lo, mas, com estes gestos Maui, que já estava encantado, ficou ainda mais deslumbrado. 
    A água estava quente. Camila avançava devagar, deixando-se molhar, atenta a tudo à sua volta, até que parou. Maui alcançou-a e, ao olhar para ele, ela apercebeu-se de como já estavam longe do barco e da costa. Como Camila não disse nada, foi Maui quem quebrou o silêncio:

    -    Afinal, que trabalho vens fazer aqui na Polinésia? Ficaste tão concentrada e calada de repente… estás com medo?

    Camila riu-se com vontade, mas ignorando o seu jeito dengoso, respondeu:

    -    Não te preocupes que não é contrabando. - E, num ápice, respirou fundo e mergulhou, desaparecendo da vista de Maui.

    Ao vê-la desaparecer num mergulho preciso, ele tentou adivinhar onde iria emergir. Deu dois passos em frente e percebeu porque razão ela tinha parado ali: mais à frente já não havia pé. 

    O tempo foi passando e nada dela aparecer. Gritou o nome dela, uma, duas, três vezes… 

    Angustiado e inquieto, nadava em círculos e submergia de vez em quando, na tentativa de a encontrar. Decidiu voltar ao barco e procurar ajuda. Começou a nadar de volta, transtornado. Mentalmente, não conseguia deixar de se recriminar por ter acontecido algo assim: 

-    Ela não conhece a área. Mas a água não é profunda. Não devias tê-la deixado ir sozinha. Eu não a deixei, ela só mergulhou e desapareceu. Ela parecia saber nadar…


Autora: Alexandra Miranda.