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quinta-feira, 12 de março de 2026

Tons de Azul

 Saboreando a Polinésia - Capítulo 2

    

    Maui ficou tão entusiasmado que os seus olhos brilharam e um sorriso enorme iluminou o seu rosto. Camila só conseguia rir; era contagiante aquela alegria dele. No seu íntimo, contudo, sentia que as coisas estavam a fluir rápido de mais… Bom, pelo menos para ele. 

    Chegaram à pousada já estava mesmo a escurecer. Maui fez questão de apresentar Camila à mãe como uma amiga e, por isso, foi convidada para jantar com o resto da família. Aceitou, mas pediu licença para ir até ao quarto tomar um duche e arrumar as coisas. Passou com a dona Mahina pela recepção, pegou na chave e seguiu para o seu aposento. Entrou, largou a mochila e a mala grande e pesada na entrada e, olhando em volta, percebeu, apesar da penumbra, como o quarto era todo em madeira envernizada brilhante; tudo era acolhedor e aconchegante. Tirou as sapatilhas e as meias, depois caminhou descalça pelo chão de madeira. Abriu as portadas e a luz do crepúsculo invadiu o quarto. Saiu para a varanda, ainda descalça, e as ondas quebravam ao longe; as águas calmas e ondulantes brilhavam apesar da pouca luz. 
    Apoiou-se no varandim, inspirou o ar puro e, apesar da ansiedade crescente, sentia-se bem, estava feliz. Voltando para dentro, foi tirando a roupa pelo caminho, primeiro as calças, depois a blusa e, por fim, o sutiã e as cuequinhas. Estava nua e pronta para o tão ansiado banho, mas quando se preparava para entrar no polibã, bateram à porta. 
Enrolou-se na enorme toalha que estava na casa de banho e foi ver quem era. Colocou o batente de segurança, abriu ligeiramente a porta e viu Maui com um envelope na mão, que, sorrindo, lhe disse:

    -    Tenho um recado para ti. Deixaram uma carta para ti na recepção pouco antes de chegares, mas a minha mãe esqueceu-se de te dar. Espero não estar a incomodar…

    Camila pôs a mão de fora para pegar no envelope e respondeu:

    -    Não incomodas nada, mas estava a preparar-me para tomar banho e não quero perder mais tempo para não me atrasar. Até já.

    Despediu-se, fechando a porta atrás de si, e ainda enrolada na toalha foi sentar-se na beira da cama enquanto abria o envelope. As mãos ficaram suadas, a respiração acelerada e estava nervosa, porque não sabia quem lhe poderia ter escrito ainda antes de chegar. 
    Inclinou-se para acender a luz do abajour; com isso, a toalha caiu, deixando os seios descobertos, mas não se importou e logo começou a ler: 

“Exma. Sra. Prof. Dra. Tallas, Camila.”

    Riu-se com este início e ficou logo muito mais descontraída, já sabia quem lhe tinha escrito. Assim, em voz baixa, continuou a leitura:

“Espero que a viagem tenha corrido bem e que estejas bem também. O voo de ligação com a ilha de Oeno só pode ser efectuado no dia depois de amanhã, à mesma hora, isto porque houve uma pequena avaria no hidroavião. 
No entanto, a montagem do abrigo e do laboratório continuará dentro dos prazos previstos e seguindo todos os planos de segurança que havíamos estabelecido.
Falamos em breve.

Ass.: Prof. Thomas :)”

    -    Com que então, um atraso... Será uma avaria grave? Espero que não… - Pensou Camila em voz alta, para logo continuar: - Ainda bem que tenho os meus colegas e amigos, Thomas e Elaine, na retaguarda a dar-me apoio. Seria bem mais difícil fazer tudo isto sem eles.

    Como não havia mais nada a fazer, senão esperar, levantou-se e pegou na toalha para finalmente ir tomar o tão esperado banho. 

    Abriu a água fria e entrou devagar no chuveiro, sentindo o impacto da água fria na pele quente. Um arrepio percorreu-lhe o corpo inteiro, não só pelo contraste térmico, mas pela intensidade de tudo o que tinha vivido naquele dia.
 
Fechou os olhos.
 
    A água escorria-lhe pelos ombros, pelas costas, pela curva suave da cintura, desenhando caminhos que a faziam estremecer. Respirou fundo, deixando que o som da água a embalasse. O coração, que ainda batia acelerado, aos poucos foi ficando mais calmo. 
Encostou a testa à parede fresca do polibã e deixou-se ficar ali, quieta, sentindo o próprio corpo. As mãos percorriam-lhe a pele, como se quisesse memorizar cada contorno. Envolveu os seios, sentindo a sensibilidade aumentar, beliscou os mamilos duros, e um gemido escapou-lhe sem que conseguisse evitar.

Cerrou os olhos.

A respiração tornou-se mais pesada.

    Sentia o prazer crescente dos seus toques. Devagar, deslizou as mãos pela barriga, descendo mais um pouco, chegou ao lugar onde o desejo se tornava quase palpável. Tocou-se. Ahhh… Um gemido… Depois outro… Foi-se tocando, lentamente, enquanto a água continuava a cair, sem parar.

Atingiu o clímax.

    Endireitou-se, amparou-se na parede e deixou que a água fria lhe refrescasse o rosto. Lavou-se com calma, sem pressas, havia sido um dia longo, intenso e cheio de emoções. Quando terminou, desligou a água e ficou ali mais um pouco, no silêncio, sentindo-se em paz. 

    Saiu do quarto já pronta. Usava um vestido azul-esverdeado de alças finas; não era muito curto, ficava ligeiramente acima dos joelhos, mas era leve e vaporoso. Voltou a calçar as suas sapatilhas tipo bota, estilo All-Star, e colocou a bolsa, que havia comprado em Taiti, a tiracolo. O cabelo estava preso num rabo de cavalo, mais uma vez feito à pressa, pois era algo que não a preocupava. Isso ou a maquilhagem, até porque raramente usava e sentia-se muito bem com isso. 
    Caminhando pelo passadiço de madeira, seguindo o som das vozes e da música, chegou à área de refeições. Maui, ansioso, assim que a viu, veio ao seu encontro e, alegre, disse-lhe:

    -    Estás linda, muito linda… Espero que estejas com fome. A minha tia, que é a cozinheira, caprichou na ementa e vais poder deliciar-te com alguns dos nossos melhores pratos. Mas és tão magrinha que não deves comer muito. 

    Rindo-se, mas de um jeito meigo e terno, Maui pegou na mão dela e, puxando-a delicadamente, levou Camila até ao seu lugar. Sentou-se com ela e, como se já a conhecesse, esperou pela resposta que de facto chegou:

    -    Estás muito seguro de ti, não estás? - ripostou Camila, soltando a mão e olhando para Maui de um jeito intenso e intimidante. 

    Ele estremeceu atrapalhado, mas logo ela sorriu e continuou a conversa de uma forma bem animada:

    -    Pois fica sabendo que eu posso ser magrinha, mas como muito bem… Aliás, ficarias surpreendido com o que consigo comer… e sim, estou cheia de fome.

    Queres matar-me do coração ou deixar-me louco, é isso? Adoro estar perto de...

    Camila, tocando com o dedo indicador nos lábios de Maui, fê-lo parar de falar. Ficaram a olhar um para o outro, olhos nos olhos, até que ela pegou na mão dele e a apertou devagar. Mas quando ela ia dizer alguma coisa… a comida chegou.

    Alguns dos hóspedes foram-se aproximando e sentaram-se também à mesa, isto porque as mesas de jantar eram comuns e a azáfama por isso era mais que muita. Com tudo isso, eles sorriram de forma cúmplice e encolheram os ombros; tinham tido um momento tão particular e secreto que até se esqueceram, por breves instantes, de onde estavam.

(Dona Mahina - 45 anos)
 
    Logo a mãe de Maui, dona Mahina, se juntou a eles e começou a servir Camila, explicando os pratos e como era a sua confecção. Começaram a refeição por chevrettes, camarões preparados com leite de coco e acompanhados por uru, também designado por fruta-pão, assado na brasa. A combinação dos dois era óptima e Camila não se fez rogada; estava mesmo com fome. 
    Dona Mahina era uma alegria, e a maneira orgulhosa como falava das suas raízes e tradições era apaixonada e contagiante. Quando veio o prato seguinte, virou-se para a nossa bióloga e, num tom sério mas cúmplice, disse-lhe: 

    -    O próximo prato é fafaru, um peixe marinado, durante umas horas, num líquido feito através da fermentação de caranguejos e camarões… Por favor, não ligue ao cheiro. Sei que é forte, mas, aparte disso, vai gostar do sabor. O peixe vem acompanhado de batata doce e mitihue, que é um molho de leite de coco fermentado. 

    Camila ouviu atentamente e depressa percebeu o porquê do aviso. À medida que outras pessoas, e também Maui, se iam servindo, o odor começou a fazer-se sentir. Serviu-se; o cheiro era de facto muito intenso e desmotivador… Isto sendo simpática. Mas, quando provou, percebeu que não havia ligação entre o cheiro e o sabor. Era delicioso, um pouco picante, mas macio e com uma textura suave. 
    Pelas suas expressões, dona Mahina e Maui perceberam que ela tinha gostado, e não se enganaram, pois logo ela o confirmou:

    -    Isto é muito bom. O cheiro… bom, o cheiro é parecido com peixe em decomposição… Mas o sabor é mesmo muito bom. Se o resto da refeição for assim tão bom, vou precisar de ajuda para me levantar da mesa. 

    Todos riram e continuaram a refeição de forma alegre e descontraída. Camila passou o prato de carne, de nome Ma’a Tinito, que era basicamente carne de porco com feijão, legumes e macarrão. Passou porque lhe pareceu ser uma refeição “mais normal” e também porque preferia comer peixe, e sabia que ainda viria um outro antes da sobremesa. 
    O prato seguinte era de facto um prato de peixe, bem tradicional: E’ia Ota, feito com Mahi-Mahi, um peixe oriundo da Polinésia, marinado em limão e leite de coco, com uma mistura de legumes picados. Esse prato, que fazia lembrar ceviche, era incrível de tão bom.
    Dona Mahina pediu licença, saiu da mesa, recolhendo parte da louça, mas logo voltou com a sobremesa, de nome Po’e, ou Poke. Maui, chegando-se mais para Camila, disse-lhe baixinho:

    Vais adorar isto, eu adoro. Poke é feito com banana, mandioca, baunilha e açúcar. Leva depois uma cobertura de leite de coco. Vês? É servido em pequenos cubos e é delicioso. 

    Estou a ver que sim - respondeu ela, apreciando o aspecto da iguaria. Quando finalmente levou um à boca, fechou os olhos: o sabor era divinal e a textura incrível. Depois do primeiro, pegou noutro e disse: - Estou a perceber porque gostas tanto. Parecem pequenos torrões de caramelo, mas suculentos. Que bela maneira de terminar a refeição. Adorei… aliás, adorei tudo.

    Ainda bem que gostaste de tudo. Estava com algum receio, mas ver-te comer com tanta satisfação deixou-me contente. Queres mais alguma coisa? - perguntou Maui, atencioso, levantando-se da mesa e estendendo-lhe a mão. 

    Camila pegou na mão dele e, levantando-se também, respondeu:

    Um café expresso. O que queria mesmo era um café expresso quentinho. Bom… e, ao que parece, nós tínhamos um cafezinho combinado, ou quase…

    Rindo-se, Maui puxou-a delicadamente e disse:

    Nós temos uma máquina de café expresso. Por isso, que dizes a pegarmos no café e sairmos para dar uma volta à beira-mar?

    Acho uma ótima ideia. Estou a gostar imenso de estar aqui e até a minha ansiedade, que estava bastante elevada, está aos poucos a passar. - Camila respondeu. 

    Saíram dali caminhando pela beira da estrada, devagar, aproveitando a noite ainda quente e sentindo a brisa marinha. Não havia ondas, apenas uma leve ondulação e, olhando o mar que brilhava com a luz da lua, conversavam sobre as suas vidas. Contavam como tinha sido a infância, que sonhos tinham e como foi crescer em meios tão diferentes. 
    Camila contou como foi sair, aos quatro anos, dos Estados Unidos para ir para a Grécia. Foi lá que fez a primária, para depois, aos dez anos, mudar-se para a Alemanha e fazer por lá todo o secundário. Contou que a vida, por isso, não tinha sido fácil: primeiro porque deixou amigos, e depois porque as línguas de ambos os países não eram fáceis de aprender.
    Disse que, apesar de só ter vivido quatro anos na América, nunca tinha perdido a ligação ao país. Por isso, quando acabou o secundário, aos dezassete anos, decidiu inscrever-se na Universidade de Los Angeles sem que os pais soubessem. Quando os resultados saíram, e uma vez que a sua nacionalidade era de facto americana, não foi com grande surpresa que leu que a sua candidatura tinha sido aceite e que teria uma bolsa de estudo. 
    O problema, esse sim, era contar aos pais e, como ainda era menor, conseguir que aceitassem a sua mudança para lá. 

    Maui, espantado, deu duas passadas largas, passou-lhe à frente e, com um sorriso de orelha a orelha, virou-se para trás dizendo:

    -    Uau! Dá para perceber que és uma mulher decidida… Como convenceste os teus pais?

    Eu, quando me proponho a fazer algo, sou inabalável. Não desisto nem dou nada como garantido. Mas essa história vai ter de ficar para outro dia... - Mudando de assunto, Camila continuou: - Já devemos estar bem longe da pousada, não?

    -    Temos vindo devagar e, por isso, não estamos longe. A verdade é que a noite está bem quente. Podíamos parar por aqui e ir dar um mergulho. Que dizes?

    -    Que não tens de repetir. Vamos! - Mal tinha acabado de falar e já ela disparava a grande velocidade, deixando Maui estupefacto para trás. Recompondo-se, ele correu atrás dela. 

    Pareciam duas crianças, rindo e correndo pela orla marítima. Lá à frente, via-se, por entre a vegetação, um barco de madeira ondulando suavemente no mar, preso a uma estaca. Chegaram com as sapatilhas encharcadas, por correr na água rasa. Tiraram a roupa à pressa e deixaram tudo dentro do barco. 
    Maui não conseguiu evitar: parou para admirar toda a beleza de Camila, que, de biquíni azul-turquesa, revelava um corpo extraordinário. Apesar de magra, tinha braços e pernas bem musculados, abdominais definidos, seios cheios e glúteos firmes e bem torneados. Percebendo como ele a olhava, soltou e sacudiu o cabelo, ajeitou a parte de cima do biquíni e, virando-lhe as costas, caminhou mar adentro. A intenção não foi provocá-lo, mas, com estes gestos Maui, que já estava encantado, ficou ainda mais deslumbrado. 
    A água estava quente. Camila avançava devagar, deixando-se molhar, atenta a tudo à sua volta, até que parou. Maui alcançou-a e, ao olhar para ele, ela apercebeu-se de como já estavam longe do barco e da costa. Como Camila não disse nada, foi Maui quem quebrou o silêncio:

    -    Afinal, que trabalho vens fazer aqui na Polinésia? Ficaste tão concentrada e calada de repente… estás com medo?

    Camila riu-se com vontade, mas ignorando o seu jeito dengoso, respondeu:

    -    Não te preocupes que não é contrabando. - E, num ápice, respirou fundo e mergulhou, desaparecendo da vista de Maui.

    Ao vê-la desaparecer num mergulho preciso, ele tentou adivinhar onde iria emergir. Deu dois passos em frente e percebeu porque razão ela tinha parado ali: mais à frente já não havia pé. 

    O tempo foi passando e nada dela aparecer. Gritou o nome dela, uma, duas, três vezes… 

    Angustiado e inquieto, nadava em círculos e submergia de vez em quando, na tentativa de a encontrar. Decidiu voltar ao barco e procurar ajuda. Começou a nadar de volta, transtornado. Mentalmente, não conseguia deixar de se recriminar por ter acontecido algo assim: 

-    Ela não conhece a área. Mas a água não é profunda. Não devias tê-la deixado ir sozinha. Eu não a deixei, ela só mergulhou e desapareceu. Ela parecia saber nadar…



terça-feira, 10 de março de 2026

Tons de Azul

 Chegada ao paraíso - Capítulo 1


    Saindo da porta do aeroporto para a pista, ela viu ao longe o pequeno avião, não era mais que uma avioneta, o táxi aéreo que fazia a ponte entre o aeroporto internacional de Fa’a’ã, em Taiti, e o aeródromo de Totegegie, nas ilhas Gambier, para onde se dirigia. Sentiu o calor intenso e húmido da Polinésia a envolvê-la; tirou a jaqueta azul-marinho do uniforme e colocou-a na mochila. Sentiu a sua blusa branca ficar colada de imediato ao corpo e, enrolando as mangas até ao cotovelo, respirou fundo e, decidida, avançou então, com passos largos, pela pista. Lembrou-se da longa viagem que já fizera até ali e de como, aos poucos, os vestígios da civilização iam ficando mais e mais diluídos. Subiu para o avião, mostrando o bilhete ao assistente de bordo, um homem de idade avançada, com a pele muito queimada pelo sol e que usava um chapéu coçado com o bordado de uma companhia aérea. Depois de este, lhe indicar o lugar, encaminhou-se para lá, ajeitou as calças jeans e sentou-se. Não sabe ao certo quanto tempo esperou, mas a sua mente, como de costume, já viajava por pensamentos e lembranças.


Estivera em Taiti há uns meses, pouco depois da cerimónia e festa de graduação. Sim, tinha-se formado na UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), em Biologia Marinha. Viera passar umas férias bem merecidas e havia adorado as pessoas, as praias, mas, acima de tudo, havia adorado o mar e as suas cores, a água límpida e toda a biodiversidade marinha que encontrara por ali. Por isso, resolveu voltar. Era o seu primeiro trabalho a solo e, apesar de ter o apoio de algumas entidades e até da própria universidade, ainda não tinha uma equipa; para já, seria apenas ela no trabalho de campo, embora tivesse dois colegas (e amigos), no trabalho de escritório/laboratório a dar algum apoio. Todo o material necessário já havia sido expedido e estaria na ilh...


    Um solavanco quebrou os seus pensamentos; o avião estremeceu e, nisto, o barulho dos motores fez-se ouvir, as hélices começaram a rodar. O assistente de bordo (uma espécie de faz-tudo naquele avião), chegou entretanto ao pé dela e foi informando, num inglês com sotaque francês:


    - Miss Tallas, queira, por favor, apertar o cinto de segurança e preparar-se porque vamos partir em breve.


    Agradecendo a informação com um aceno subtil de cabeça, apertou o cinto, sentiu um frio na barriga e respirou fundo. Não gostava nada de andar de avião e aquele, em particular, era bem frágil, ou assim lhe parecia.

O senhor "faz-tudo" recolheu a escadinha e preparava-se para fechar a porta quando, do nada, surge alguém afogueado a pedir para entrar. O assistente riu-se, como se já conhecesse a pessoa em causa, pediu o bilhete e, depois de o verificar, deu autorização, dizendo em francês: 


    -    Qualquer dia ficas em terra e depois não te venhas queixar... 


    O estranho interrompeu-o e, atirando a sua mochila para dentro do avião, disse:


    -    Vavau, eu sei… eu sei que o próximo avião é só daqui a dois dias… Por isso, peço imensa desculpa, mas agradeço por me deixares embarcar. Ajuda-me a subir e então podemos seguir viagem.


(Senhor Vavau - 70 anos)

    

    O senhor "faz tudo", que agora sabemos ser o senhor Vavau, ajudou o moço a subir. Deu para perceber que ele era alto, pois teve de se baixar bastante para entrar e para se dirigir ao lugar. Só quando ele se sentou ao seu lado é que ela percebeu como ele era jovem: de pele bem morena, cabelo negro encaracolado, olhos negros rasgados, um nariz proeminente e ligeiramente achatado, uns lábios grossos e bem carnudos. Pôde ainda verificar que ele tinha uma compleição física fora da média, com braços grossos e bíceps bem proeminentes, que faziam a sua t-shirt parecer ainda mais justa. Mas o que mais se destacava nele eram as tatuagens que tinha nos braços e no rosto… 

    Depois desta visão do que parecia ser um deus grego, ela ajeitou-se no banco, verificou novamente o cinto de segurança e voltou a olhar para a rua. Podia ver o mar ao longe e o sol, que já estava bem próximo da linha do horizonte. Deveriam chegar a Gambier mesmo no lusco-fusco. Respirou fundo e cerrou os olhos com o anúncio da partida do avião. 


    -    Miss... Miss... - o estranho tentou chamar a atenção dela, mas sem êxito. 


    O barulho dos motores e o seu nível de ansiedade deixaram-na num estado de letargia elevado, que se adensava mais a cada instante que passava, e piorou ainda mais quando o senhor Vavau, o assistente de bordo, finalmente fechou a porta e passou por eles, que eram os únicos passageiros, para se juntar ao piloto e assim poderem finalmente partir.


    O avião estremeceu, acelerou, percorreu a pista e acabou por levantar voo sem problemas. Ela, que havia cerrado os olhos, sentiu que estavam no ar e podia, por fim, respirar. Respirou fundo e abriu os olhos. A visão que teve lá fora voltou a deixá-la sem respiração, mas a ansiedade deu lugar ao entusiasmo e, mentalmente, disse:


    -    Uau... Que bonito... O mar nesta zona do Pacífico é tão azul... Tantos tons de azul... 


    Esta última frase dos seus pensamentos foi entoada em voz alta; ela não se apercebeu, mas o moço, ouvindo-a, aproveitou para meter conversa com ela, tal como já o havia tentado antes, dizendo em inglês fluente:


    -    Miss... Miss… desculpe-me... Peço imensa desculpa por ter atrasado o seu voo. O meu nome é Maui, e não se preocupe, já faço este trajeto há muito tempo e nunca houve problemas. Não precisa ter medo, é bastante seguro até...


    -    Nota-se assim tanto que tenho medo? - Ela interrompeu, olhando fixamente nos olhos de Maui, que, apesar do seu jeito galanteador e seguro de si, estremeceu quando fixou aqueles olhos azuis, grandes e brilhantes como safiras. 


    Um bocado desconcertado, gaguejou de volta:


    -    Bom, sim... Quer dizer, não, nem por isso…


    Rindo-se, ela respondeu, sentindo um certo alívio naquele momento, como que esquecendo que estava a voar e a uns quantos metros acima do vasto oceano:


    -    Sim, tenho imenso medo de andar de avião. Tenho medo dos grandes; voar nestes pequenos é ainda pior. Mas saber que este não será o meu último voo e que volto a voar amanhã deixa-me bem ansiosa. Mas, apesar disso, agradeço a preocupação. Ah... e já agora, o meu nome é Camila. Camila Tallas.


(Maui - 20 anos)


    Assim, Camila e Maui, depois das devidas apresentações e deste "quebrar do gelo" entre dois desconhecidos, foram tendo uma conversa simpática e trivial. Maui, no seu jeito galã de cinema, continuou:


    Muito gosto em conhecer-te Camila. Como já disse, o meu nome é Maui. Mas diz-me: o que faz uma mulher tão jovem e bonita viajar sozinha por estas paragens? - perguntou ele, desapertando o cinto de segurança e virando-se para ela. 


    -    Agradeço imenso os elogios - respondeu Camila, rindo-se mais uma vez e achando imensa piada ao jeito tão à vontade de Maui. Mas, clareando a voz, logo continuou: - Eu estou na Polinésia a trabalho, aliás, este é mesmo o meu primeiro trabalho. Formei-me na UCLA como bióloga marinha faz pouco tempo e agora cá estou, a abraçar este projeto. Vou em breve encontrar-me com a minha equipa... - Ocultando a parte em que estaria sozinha, de forma proposital, um nervoso miudinho surgiu nela. Mexeu-se, desconfortável, no banco, calou-se e voltou o olhar novamente para a janela e para a imensidão do oceano lá em baixo.


    Maui, encantado pela beleza da nossa bióloga, admirou-a com calma, aproveitando que ela se havia virado para o lado da janela... O cabelo de um loiro brilhante e algo despenteado, os olhos grandes e muito azuis, pestanas e sobrancelhas claras de um loiro quase branco, o nariz fino e a boca delicada, mostrando lábios rosados e bem carnudos. Ela não usava maquilhagem; as pequenas sardas que pintavam o seu rosto delicado davam-lhe um ar terno, inocente. Nada do que via o deixou indiferente. Não podia deixar esmorecer a conversa e, assim, continuou com o diálogo, perguntando:


    -    Então, é mesmo a tua primeira vez por estes lados? Aproveitaste as festividades do Heiva i Bora Bora?


    Camila voltou a sair da sua bolha momentânea e, virando-se novamente para o interior do avião, respondeu:


    -    Já havia estado por aqui. Conheço Taiti e Bora Bora; passei férias com os meus pais e uns amigos há uns meses e adorei. Tanto adorei que regressei, embora agora seja a trabalho. Tu és mesmo daqui? Nasceste aqui?


    -    Sim, sou mesmo polinésio, de uma linhagem bem antiga, por sinal. Nasci aqui no Taiti. Tenho 20 anos. - Falou Maui com muito orgulho para logo continuar: - Estou a regressar a casa. Estive nas festividades tradicionais da ilha e pratico um desporto antigo que se chama Va'a. Tu nasceste onde? O teu sotaque é bem estranho, é diferente. 


    -    Eu nasci nos Estados Unidos, em Los Angeles. Tenho 24 anos, mas o meu pai é grego e a minha mãe é alemã. Vivi bastantes anos no estrangeiro até que regressei a casa, aos Estados Unidos, para entrar na universidade. Mas deixemos isso… Que desporto é esse tal de Va'a?


    -    O Va’a é uma corrida de canoas. São canoas duplas e, além de ser um desporto, é também uma tradição muito antiga e importante na nossa cultura. Não sei se alguma vez viste isso, mas, se ainda estiveres por estes lados, podemos combinar e levo-te a um dos eventos, até para conheceres melhor as nossas tradições e o festival. Que dizes?


    -    Não achas que ainda é muito cedo para isso? Acabámos de nos conhecer e eu não vou ficar por aqui muito tempo. Amanhã já apanho um hidroavião para uma outra ilha e vou ficar por lá um bom tempo.


    -    Olha, não queria faltar-te ao respeito nem forçar nada. Mas não posso negar que fiquei muito interessado em ti. És linda e gostava de te conhecer melhor, só isso.


    Camila enrubesceu como há muito tempo não acontecia e, desviando o olhar, passou nervosamente a mão pelo pescoço. Depois de um tempinho, voltou a encarar Maui e respondeu, de uma forma algo nervosa:


    -    Sabes, também não estás nada mal… - Tossiu, quando a voz lhe falhou, mas logo continuou: - Fazemos assim: eu não conheço nada bem a Ilha para onde vamos, mas, aparentemente, tu conheces. Podemos combinar um caf… 


    Mas ela não conseguiu acabar de falar, porque o senhor Vavau, abrindo a porta da cabine do piloto, logo os instruiu a colocar os cintos, pois estavam a aproximar-se do aeródromo de Totegegie, na ilha Gambier. O tempo, com a conversa, passou rápido e Camila, que não havia chegado a tirar o cinto, verificou se estava tudo bem e logo olhou pela janela. O sol já estava a tocar na linha do horizonte, e que pôr-do-sol lindo. Raios laranja furavam algumas nuvens, parecia que uma fogueira imensa ardia ao longe. Lá em baixo já se via a Ilha e a pequena língua de terra, a península de Totegegie, onde estava o aeródromo. 

    Ela tremeu, as mãos suaram e voltou para o seu pequeno transe; o medo havia regressado em força. Maui percebeu e passou delicadamente a mão pelo ombro e pelas costas de Camila, tentando acalmá-la, dizendo baixinho:


    -    Não te preocupes… Respira fundo e tenta relaxar, vai correr tudo bem… O piloto é muito bom e experiente.


    Naquele momento, apesar de ter gostado das palavras dele, Camila já não reagia. O avião, descendo cada vez mais baixo e rodeando a Ilha, começou a aproximação à pequena pista. Os motores faziam ainda mais barulho e tudo estremecia. Estavam cada vez mais perto, mais perto… As rodas do avião, por fim, tocaram no chão; os solavancos sacudiram tudo, até que este, após uns metros, estacou. 

    Camila gritou, percebendo como o avião havia parado mesmo na extremidade da pista, bem perto do mar, mas devia ser mesmo assim, afinal, havia mar por todo o lado.

    O senhor Vavau, saindo da cabine do piloto e vendo como Camila tremia e parecia tão aflita, chegou perto dela, afastando delicadamente Maui, que já se debruçava sobre ela, e de forma terna e calma perguntou:


    -    Miss Tallas, como se sente? Há alguma coisa que possa fazer para a ajudar?


    Ela levantou a cabeça, ajeitou o cabelo que havia ficado colado ao rosto, passou umas pontas soltas por trás da orelha e, virando-se para o assistente de bordo, respondeu:


    -    Agradeço imenso a sua preocupação, mas vou precisar de um tempo… para recuperar o fôlego, e depois já fico melhor.


    Ela sentia o suor escorrer pela testa, as mãos tremiam e a respiração estava pesada. Mas, constrangida e querendo mudar de assunto, continuou perguntando:


    -    O barco para a ilha demora muito tempo a sair?


    Não, não demora. Mas não se preocupe, Miss Tallas, ele não zarpa sem você. Por falar nisso, quer que leve a sua mala grande até ao cais?


    Maui, que ouvira atentamente a conversa e a pergunta do senhor Vavau, logo se disponibilizou, dizendo:


    -    Vau, eu levo a mala dela sem problema nenhum. Vai lá pôr a escada e vamos embora, que já está a escurecer e ainda tens de fazer a viagem de volta. 


    Camila ainda tentou protestar, mas ele, sorrindo, tranquilizou-a e foi atrás do assistente de bordo. Assim, ela aproveitou para tirar da mochila uma garrafa de água e bebeu com vontade. Nem tinha percebido como estava com sede; a humidade ali era muito elevada, tinha de ter cuidado com isso…

    Recompôs-se, limpou o rosto e as mãos, levantou-se e, aproveitando que estava sozinha, ajeitou a roupa e o cabelo. Pegou na mochila e saiu do avião para o calor da rua. O sol já nem se via; nuvens no horizonte ocultavam o astro brilhante, mas os seus raios de luz ainda faziam toda a diferença na paisagem.

    Camila viu o senhor Vavau ao longe e percebeu que ele vinha ao seu encontro. Foi caminhando para lá enquanto admirava a paisagem; ver e ouvir o mar ali, à sua volta, era uma sensação indescritível. Quando ele a viu chegar ao pé de si, falou:


    -    Miss… Miss Tallas, já está tudo pronto para a travessia. A sua mala já está a bordo e não se preocupe, aqui está em boas mãos, está segura. - Fez uma pausa, pigarreou e continuou: - Olhe, aquele moço, o Maui excede-se um pouco e tem aquele seu jeito, mas no fundo é um bom rapaz... Bom, aqui está o meu cartão. Se precisar de alguma coisa, tem aí o meu número de telemóvel e também a frequência, pode contactar-me via rádio.


    -    Obrigada senhor Vavau. Adorei a sua atenção e simpatia. Eu não gosto de andar de avião, sou bem medrosa, mas pode dizer ao piloto que a viagem, apesar de tudo, foi bem tranquila.


    Ele riu-se alto e bem disposto. Depois, dando um aperto de mão a Camila, disse-lhe, sorrindo de forma cúmplice:


    -    Gostei muito de saber isso, mas sabe… o piloto sou eu. 


    Dito isto, seguiu em direção ao avião, rindo a bom rir. Camila corou, riu-se também, colocou a mochila às costas e caminhou em direção ao cais, onde estava o barco que a esperava para, finalmente, fazer a travessia. 

    Entrou e, quando já ia perguntar pelas suas coisas, Maui chamou por ela:


    -    Camila, estou aqui. Também está aqui a tua mala. Espero que não tenhas problemas em andar de barco como tens a andar de avião. - Falou num tom cúmplice, mas debochado, como se já a conhecesse há muito tempo. 


    Ela, lembrando-se das palavras do senhor Vavau, riu e respondeu bem-disposta:


    -    Não, por incrível que pareça, navegar não me faz mal algum. Adoro o movimento das ondas, adoro o mar e quase que me sinto melhor e mais confortável dentro de água do que fora dela.


    O barco iniciou a travessia da baía, ou melhor, do atol, navegando nas águas calmas ao redor da ilha. Maui levantou-se, disse qualquer coisa a um membro da tripulação e voltou depois para junto de Camila, dizendo:


    -    Eu não vou seguir caminho contigo até ao norte da ilha. A minha mãe mora na parte sul e pedi para me deixarem lá. Temos de combinar o tal café antes de ires embora. Diz-me, onde vais estar hospedada? - Depois de dizer isto, foi a sua vez de mostrar algum nervosismo, passou as mão pelos cabelos e aguardou, tenso, a resposta. 


    -    Eu vou estar hospedada na pensão Chez Mahina e…


    Maui arregalou os olhos e não a deixou terminar, dizendo de chofre:


    -    Estás a brincar?! Essa pensão é da minha mãe!



domingo, 8 de março de 2026

Tons de Azul

Sinopse - Capítulo 0



    Quando Camila, uma jovem bióloga marinha, chega a um remoto atol da Polinésia para estudar um peixe raro, acredita que encontrou apenas um paraíso isolado. Mas o mar tem uma forma peculiar de observar quem se aproxima demasiado.

    Entre recifes silenciosos e noites que parecem vivas, ela encontra um estranho objeto que não deveria existir. Um brilho impossível. Uma textura que arrepia. Desde esse momento, algo muda, no corpo, na mente, no próprio mar e em tudo o que a rodeia.

A cada passo, Camila sente que está a tocar num mistério que não é suposto descobrir.


Camila Tallas tem 24 anos. Nascida nos Estados Unidos da América, em Los Angeles, ela é filha de um pai grego e de uma mãe alemã. Formada na UCLA, em biologia marinha, depressa se destacou dentro da universidade com os seus trabalhos e pesquisas. Ela estuda e luta pela preservação de um peixe raro, o Black Tang. A viagem para a Polinésia tem como principal objectivo: ajudar a salvar da extinção esse animal e conhecer melhor os seus hábitos de vida.


O que será que o futuro lhe reserva? A viagem já começou e em breve ela chegará ao Taiti, a um mundo que já conhece, mas que nunca explorou de forma profissional. Estará preparada para esta aventura? Para a confiança que corpo docente da universidade depositou nela?

As viagens de avião, para já, são apenas uma parte dos seus problemas. 

Outros virão. Mas, apesar disso, vens connosco até à Polinésia?







sexta-feira, 6 de março de 2026

Ângulo Morto

 






Olhando pelos retrovisores eu vejo... 

Um passado mais perto do que parece.


Não é mais do que meras perspectivas.

Pontos de vista, contudo enganadores. 


Um ângulo morto pode ser perigoso

Nem tudo é visível de imediato, não.


É mais do que uma vida vazia, vã e sombria

Ângulos suplementares deste leito sem fim.


Esticando e alongando-se a perder de vista

Este é o ângulo raso que vamos percorrendo .


A estrada é longa e o horizonte nunca chega

Há que parar e descansar para não desanimar.


De pé, olhando a noite, a imensidão de estrelas

Percebemos o quão pequenos somos por aqui.


Ângulos complementares que se vão somando

Somos agora um ângulo recto, de fé e devoção. 


Alexandra Miranda, 21-01-2026

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Sobre viver.

Viver e estar vivo,

Tem peso e significado.

É passar a vida 

ou simplesmente desfrutá-la.

Implica estar VIVO,

mesmo quando a vontade falta.


Estar vivo é existência.

É respirar,

é rotina,

é subsistir.

Mas viver é sentir,

ter propósito,

é aprender,

é transformar-se.


Viver é experiência.

É intensidade que não se explica,

é render-se ao desconhecido,

é ensaio e erro sem aprovação.


Estar vivo exige recursos.

Sentir-se vivo exige coragem:

aceitar dores, abraçar alegrias.

É lembrar do que não se pode escapar.

E é nesse contraste

que descobrimos o que nos faz

SER além de EXISTIR.


Ericka Reis / 17.09.25



quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Balada da Neve

Batem leve, levemente,

como quem chama por mim.

Será chuva? Será gente?

Gente não é, certamente

e a chuva não bate assim.


É talvez a ventania:

mas há pouco, há poucochinho,

nem uma agulha bulia

na quieta melancolia

dos pinheiros do caminho...


Quem bate, assim, levemente,

com tão estranha leveza,

que mal se ouve, mal se sente?

Não é chuva, nem é gente,

nem é vento com certeza.


Fui ver. A neve caía

do azul cinzento do céu,

branca e leve, branca e fria...

- Há quanto tempo a não via!

E que saudades, Deus meu!


Olho-a através da vidraça.

Pôs tudo da cor do linho.

Passa gente e, quando passa,

os passos imprime e traça

na brancura do caminho...


Fico olhando esses sinais

da pobre gente que avança,

e noto, por entre os mais,

os traços miniaturais

duns pezitos de criança...


E descalcinhos, doridos...

a neve deixa inda vê-los,

primeiro, bem definidos,

depois, em sulcos compridos,

porque não podia erguê-los!...


Que quem já é pecador

sofra tormentos, enfim!

Mas as crianças, Senhor,

porque lhes dais tanta dor?!...

Porque padecem assim?!...


E uma infinita tristeza,

uma funda turbação

entra em mim, fica em mim presa.

Cai neve na Natureza

- e cai no meu coração.


Poema de Augusto Gil






terça-feira, 25 de novembro de 2025

Sentido

Amar é sonhar com a utopia.

Leviana, tal e qual ela deve ser. 

Estravazando o que vai no peito. 

Xebre paladar, ai, desta sociedade. 

Ajuizada, mas de valores fracos! 

Nada pode ser dito e pior, pensado. 

Demagogia dos tempos modernos. 

Revolução, oh... Que fraca amostra. 

Amar, assim, vai sendo proibido...


Será que tudo isto faz sentido?

Alexandra Miranda,  21-09-2025

Amar... 

Amar sempre fará sentido.

Maior virtude da humanidade.

Apesar dos flagelos da sociedade.

Resposta forte, para a alma, mudar!


Ericka Reis, 22-09-2025