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terça-feira, 10 de março de 2026

Tons de Azul

 Chegada ao paraíso - Capítulo 1


    Saindo da porta do aeroporto para a pista, ela viu ao longe o pequeno avião, não era mais que uma avioneta, o táxi aéreo que fazia a ponte entre o aeroporto internacional de Fa’a’ã, em Taiti, e o aeródromo de Totegegie, nas ilhas Gambier, para onde se dirigia. Sentiu o calor intenso e húmido da Polinésia a envolvê-la; tirou a jaqueta azul-marinho do uniforme e colocou-a na mochila. Sentiu a sua blusa branca ficar colada de imediato ao corpo e, enrolando as mangas até ao cotovelo, respirou fundo e, decidida, avançou então, com passos largos, pela pista. Lembrou-se da longa viagem que já fizera até ali e de como, aos poucos, os vestígios da civilização iam ficando mais e mais diluídos. Subiu para o avião, mostrando o bilhete ao assistente de bordo, um homem de idade avançada, com a pele muito queimada pelo sol e que usava um chapéu coçado com o bordado de uma companhia aérea. Depois de este, lhe indicar o lugar, encaminhou-se para lá, ajeitou as calças jeans e sentou-se. Não sabe ao certo quanto tempo esperou, mas a sua mente, como de costume, já viajava por pensamentos e lembranças.


Estivera em Taiti há uns meses, pouco depois da cerimónia e festa de graduação. Sim, tinha-se formado na UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), em Biologia Marinha. Viera passar umas férias bem merecidas e havia adorado as pessoas, as praias, mas, acima de tudo, havia adorado o mar e as suas cores, a água límpida e toda a biodiversidade marinha que encontrara por ali. Por isso, resolveu voltar. Era o seu primeiro trabalho a solo e, apesar de ter o apoio de algumas entidades e até da própria universidade, ainda não tinha uma equipa; para já, seria apenas ela no trabalho de campo, embora tivesse dois colegas (e amigos), no trabalho de escritório/laboratório a dar algum apoio. Todo o material necessário já havia sido expedido e estaria na ilh...


    Um solavanco quebrou os seus pensamentos; o avião estremeceu e, nisto, o barulho dos motores fez-se ouvir, as hélices começaram a rodar. O assistente de bordo (uma espécie de faz-tudo naquele avião), chegou entretanto ao pé dela e foi informando, num inglês com sotaque francês:


    - Miss Tallas, queira, por favor, apertar o cinto de segurança e preparar-se porque vamos partir em breve.


    Agradecendo a informação com um aceno subtil de cabeça, apertou o cinto, sentiu um frio na barriga e respirou fundo. Não gostava nada de andar de avião e aquele, em particular, era bem frágil, ou assim lhe parecia.

O senhor "faz-tudo" recolheu a escadinha e preparava-se para fechar a porta quando, do nada, surge alguém afogueado a pedir para entrar. O assistente riu-se, como se já conhecesse a pessoa em causa, pediu o bilhete e, depois de o verificar, deu autorização, dizendo em francês: 


    -    Qualquer dia ficas em terra e depois não te venhas queixar... 


    O estranho interrompeu-o e, atirando a sua mochila para dentro do avião, disse:


    -    Vavau, eu sei… eu sei que o próximo avião é só daqui a dois dias… Por isso, peço imensa desculpa, mas agradeço por me deixares embarcar. Ajuda-me a subir e então podemos seguir viagem.


(Senhor Vavau - 70 anos)

    

    O senhor "faz tudo", que agora sabemos ser o senhor Vavau, ajudou o moço a subir. Deu para perceber que ele era alto, pois teve de se baixar bastante para entrar e para se dirigir ao lugar. Só quando ele se sentou ao seu lado é que ela percebeu como ele era jovem: de pele bem morena, cabelo negro encaracolado, olhos negros rasgados, um nariz proeminente e ligeiramente achatado, uns lábios grossos e bem carnudos. Pôde ainda verificar que ele tinha uma compleição física fora da média, com braços grossos e bíceps bem proeminentes, que faziam a sua t-shirt parecer ainda mais justa. Mas o que mais se destacava nele eram as tatuagens que tinha nos braços e no rosto… 

    Depois desta visão do que parecia ser um deus grego, ela ajeitou-se no banco, verificou novamente o cinto de segurança e voltou a olhar para a rua. Podia ver o mar ao longe e o sol, que já estava bem próximo da linha do horizonte. Deveriam chegar a Gambier mesmo no lusco-fusco. Respirou fundo e cerrou os olhos com o anúncio da partida do avião. 


    -    Miss... Miss... - o estranho tentou chamar a atenção dela, mas sem êxito. 


    O barulho dos motores e o seu nível de ansiedade deixaram-na num estado de letargia elevado, que se adensava mais a cada instante que passava, e piorou ainda mais quando o senhor Vavau, o assistente de bordo, finalmente fechou a porta e passou por eles, que eram os únicos passageiros, para se juntar ao piloto e assim poderem finalmente partir.


    O avião estremeceu, acelerou, percorreu a pista e acabou por levantar voo sem problemas. Ela, que havia cerrado os olhos, sentiu que estavam no ar e podia, por fim, respirar. Respirou fundo e abriu os olhos. A visão que teve lá fora voltou a deixá-la sem respiração, mas a ansiedade deu lugar ao entusiasmo e, mentalmente, disse:


    -    Uau... Que bonito... O mar nesta zona do Pacífico é tão azul... Tantos tons de azul... 


    Esta última frase dos seus pensamentos foi entoada em voz alta; ela não se apercebeu, mas o moço, ouvindo-a, aproveitou para meter conversa com ela, tal como já o havia tentado antes, dizendo em inglês fluente:


    -    Miss... Miss… desculpe-me... Peço imensa desculpa por ter atrasado o seu voo. O meu nome é Maui, e não se preocupe, já faço este trajeto há muito tempo e nunca houve problemas. Não precisa ter medo, é bastante seguro até...


    -    Nota-se assim tanto que tenho medo? - Ela interrompeu, olhando fixamente nos olhos de Maui, que, apesar do seu jeito galanteador e seguro de si, estremeceu quando fixou aqueles olhos azuis, grandes e brilhantes como safiras. 


    Um bocado desconcertado, gaguejou de volta:


    -    Bom, sim... Quer dizer, não, nem por isso…


    Rindo-se, ela respondeu, sentindo um certo alívio naquele momento, como que esquecendo que estava a voar e a uns quantos metros acima do vasto oceano:


    -    Sim, tenho imenso medo de andar de avião. Tenho medo dos grandes; voar nestes pequenos é ainda pior. Mas saber que este não será o meu último voo e que volto a voar amanhã deixa-me bem ansiosa. Mas, apesar disso, agradeço a preocupação. Ah... e já agora, o meu nome é Camila. Camila Tallas.


(Maui - 20 anos)


    Assim, Camila e Maui, depois das devidas apresentações e deste "quebrar do gelo" entre dois desconhecidos, foram tendo uma conversa simpática e trivial. Maui, no seu jeito galã de cinema, continuou:


    Muito gosto em conhecer-te Camila. Como já disse, o meu nome é Maui. Mas diz-me: o que faz uma mulher tão jovem e bonita viajar sozinha por estas paragens? - perguntou ele, desapertando o cinto de segurança e virando-se para ela. 


    -    Agradeço imenso os elogios - respondeu Camila, rindo-se mais uma vez e achando imensa piada ao jeito tão à vontade de Maui. Mas, clareando a voz, logo continuou: - Eu estou na Polinésia a trabalho, aliás, este é mesmo o meu primeiro trabalho. Formei-me na UCLA como bióloga marinha faz pouco tempo e agora cá estou, a abraçar este projeto. Vou em breve encontrar-me com a minha equipa... - Ocultando a parte em que estaria sozinha, de forma proposital, um nervoso miudinho surgiu nela. Mexeu-se, desconfortável, no banco, calou-se e voltou o olhar novamente para a janela e para a imensidão do oceano lá em baixo.


    Maui, encantado pela beleza da nossa bióloga, admirou-a com calma, aproveitando que ela se havia virado para o lado da janela... O cabelo de um loiro brilhante e algo despenteado, os olhos grandes e muito azuis, pestanas e sobrancelhas claras de um loiro quase branco, o nariz fino e a boca delicada, mostrando lábios rosados e bem carnudos. Ela não usava maquilhagem; as pequenas sardas que pintavam o seu rosto delicado davam-lhe um ar terno, inocente. Nada do que via o deixou indiferente. Não podia deixar esmorecer a conversa e, assim, continuou com o diálogo, perguntando:


    -    Então, é mesmo a tua primeira vez por estes lados? Aproveitaste as festividades do Heiva i Bora Bora?


    Camila voltou a sair da sua bolha momentânea e, virando-se novamente para o interior do avião, respondeu:


    -    Já havia estado por aqui. Conheço Taiti e Bora Bora; passei férias com os meus pais e uns amigos há uns meses e adorei. Tanto adorei que regressei, embora agora seja a trabalho. Tu és mesmo daqui? Nasceste aqui?


    -    Sim, sou mesmo polinésio, de uma linhagem bem antiga, por sinal. Nasci aqui no Taiti. Tenho 20 anos. - Falou Maui com muito orgulho para logo continuar: - Estou a regressar a casa. Estive nas festividades tradicionais da ilha e pratico um desporto antigo que se chama Va'a. Tu nasceste onde? O teu sotaque é bem estranho, é diferente. 


    -    Eu nasci nos Estados Unidos, em Los Angeles. Tenho 24 anos, mas o meu pai é grego e a minha mãe é alemã. Vivi bastantes anos no estrangeiro até que regressei a casa, aos Estados Unidos, para entrar na universidade. Mas deixemos isso… Que desporto é esse tal de Va'a?


    -    O Va’a é uma corrida de canoas. São canoas duplas e, além de ser um desporto, é também uma tradição muito antiga e importante na nossa cultura. Não sei se alguma vez viste isso, mas, se ainda estiveres por estes lados, podemos combinar e levo-te a um dos eventos, até para conheceres melhor as nossas tradições e o festival. Que dizes?


    -    Não achas que ainda é muito cedo para isso? Acabámos de nos conhecer e eu não vou ficar por aqui muito tempo. Amanhã já apanho um hidroavião para uma outra ilha e vou ficar por lá um bom tempo.


    -    Olha, não queria faltar-te ao respeito nem forçar nada. Mas não posso negar que fiquei muito interessado em ti. És linda e gostava de te conhecer melhor, só isso.


    Camila enrubesceu como há muito tempo não acontecia e, desviando o olhar, passou nervosamente a mão pelo pescoço. Depois de um tempinho, voltou a encarar Maui e respondeu, de uma forma algo nervosa:


    -    Sabes, também não estás nada mal… - Tossiu, quando a voz lhe falhou, mas logo continuou: - Fazemos assim: eu não conheço nada bem a Ilha para onde vamos, mas, aparentemente, tu conheces. Podemos combinar um caf… 


    Mas ela não conseguiu acabar de falar, porque o senhor Vavau, abrindo a porta da cabine do piloto, logo os instruiu a colocar os cintos, pois estavam a aproximar-se do aeródromo de Totegegie, na ilha Gambier. O tempo, com a conversa, passou rápido e Camila, que não havia chegado a tirar o cinto, verificou se estava tudo bem e logo olhou pela janela. O sol já estava a tocar na linha do horizonte, e que pôr-do-sol lindo. Raios laranja furavam algumas nuvens, parecia que uma fogueira imensa ardia ao longe. Lá em baixo já se via a Ilha e a pequena língua de terra, a península de Totegegie, onde estava o aeródromo. 

    Ela tremeu, as mãos suaram e voltou para o seu pequeno transe; o medo havia regressado em força. Maui percebeu e passou delicadamente a mão pelo ombro e pelas costas de Camila, tentando acalmá-la, dizendo baixinho:


    -    Não te preocupes… Respira fundo e tenta relaxar, vai correr tudo bem… O piloto é muito bom e experiente.


    Naquele momento, apesar de ter gostado das palavras dele, Camila já não reagia. O avião, descendo cada vez mais baixo e rodeando a Ilha, começou a aproximação à pequena pista. Os motores faziam ainda mais barulho e tudo estremecia. Estavam cada vez mais perto, mais perto… As rodas do avião, por fim, tocaram no chão; os solavancos sacudiram tudo, até que este, após uns metros, estacou. 

    Camila gritou, percebendo como o avião havia parado mesmo na extremidade da pista, bem perto do mar, mas devia ser mesmo assim, afinal, havia mar por todo o lado.

    O senhor Vavau, saindo da cabine do piloto e vendo como Camila tremia e parecia tão aflita, chegou perto dela, afastando delicadamente Maui, que já se debruçava sobre ela, e de forma terna e calma perguntou:


    -    Miss Tallas, como se sente? Há alguma coisa que possa fazer para a ajudar?


    Ela levantou a cabeça, ajeitou o cabelo que havia ficado colado ao rosto, passou umas pontas soltas por trás da orelha e, virando-se para o assistente de bordo, respondeu:


    -    Agradeço imenso a sua preocupação, mas vou precisar de um tempo… para recuperar o fôlego, e depois já fico melhor.


    Ela sentia o suor escorrer pela testa, as mãos tremiam e a respiração estava pesada. Mas, constrangida e querendo mudar de assunto, continuou perguntando:


    -    O barco para a ilha demora muito tempo a sair?


    Não, não demora. Mas não se preocupe, Miss Tallas, ele não zarpa sem você. Por falar nisso, quer que leve a sua mala grande até ao cais?


    Maui, que ouvira atentamente a conversa e a pergunta do senhor Vavau, logo se disponibilizou, dizendo:


    -    Vau, eu levo a mala dela sem problema nenhum. Vai lá pôr a escada e vamos embora, que já está a escurecer e ainda tens de fazer a viagem de volta. 


    Camila ainda tentou protestar, mas ele, sorrindo, tranquilizou-a e foi atrás do assistente de bordo. Assim, ela aproveitou para tirar da mochila uma garrafa de água e bebeu com vontade. Nem tinha percebido como estava com sede; a humidade ali era muito elevada, tinha de ter cuidado com isso…

    Recompôs-se, limpou o rosto e as mãos, levantou-se e, aproveitando que estava sozinha, ajeitou a roupa e o cabelo. Pegou na mochila e saiu do avião para o calor da rua. O sol já nem se via; nuvens no horizonte ocultavam o astro brilhante, mas os seus raios de luz ainda faziam toda a diferença na paisagem.

    Camila viu o senhor Vavau ao longe e percebeu que ele vinha ao seu encontro. Foi caminhando para lá enquanto admirava a paisagem; ver e ouvir o mar ali, à sua volta, era uma sensação indescritível. Quando ele a viu chegar ao pé de si, falou:


    -    Miss… Miss Tallas, já está tudo pronto para a travessia. A sua mala já está a bordo e não se preocupe, aqui está em boas mãos, está segura. - Fez uma pausa, pigarreou e continuou: - Olhe, aquele moço, o Maui excede-se um pouco e tem aquele seu jeito, mas no fundo é um bom rapaz... Bom, aqui está o meu cartão. Se precisar de alguma coisa, tem aí o meu número de telemóvel e também a frequência, pode contactar-me via rádio.


    -    Obrigada senhor Vavau. Adorei a sua atenção e simpatia. Eu não gosto de andar de avião, sou bem medrosa, mas pode dizer ao piloto que a viagem, apesar de tudo, foi bem tranquila.


    Ele riu-se alto e bem disposto. Depois, dando um aperto de mão a Camila, disse-lhe, sorrindo de forma cúmplice:


    -    Gostei muito de saber isso, mas sabe… o piloto sou eu. 


    Dito isto, seguiu em direção ao avião, rindo a bom rir. Camila corou, riu-se também, colocou a mochila às costas e caminhou em direção ao cais, onde estava o barco que a esperava para, finalmente, fazer a travessia. 

    Entrou e, quando já ia perguntar pelas suas coisas, Maui chamou por ela:


    -    Camila, estou aqui. Também está aqui a tua mala. Espero que não tenhas problemas em andar de barco como tens a andar de avião. - Falou num tom cúmplice, mas debochado, como se já a conhecesse há muito tempo. 


    Ela, lembrando-se das palavras do senhor Vavau, riu e respondeu bem-disposta:


    -    Não, por incrível que pareça, navegar não me faz mal algum. Adoro o movimento das ondas, adoro o mar e quase que me sinto melhor e mais confortável dentro de água do que fora dela.


    O barco iniciou a travessia da baía, ou melhor, do atol, navegando nas águas calmas ao redor da ilha. Maui levantou-se, disse qualquer coisa a um membro da tripulação e voltou depois para junto de Camila, dizendo:


    -    Eu não vou seguir caminho contigo até ao norte da ilha. A minha mãe mora na parte sul e pedi para me deixarem lá. Temos de combinar o tal café antes de ires embora. Diz-me, onde vais estar hospedada? - Depois de dizer isto, foi a sua vez de mostrar algum nervosismo, passou as mão pelos cabelos e aguardou, tenso, a resposta. 


    -    Eu vou estar hospedada na pensão Chez Mahina e…


    Maui arregalou os olhos e não a deixou terminar, dizendo de chofre:


    -    Estás a brincar?! Essa pensão é da minha mãe!



domingo, 8 de março de 2026

Tons de Azul

Sinopse - Capítulo 0



    Quando Camila, uma jovem bióloga marinha, chega a um remoto atol da Polinésia para estudar um peixe raro, acredita que encontrou apenas um paraíso isolado. Mas o mar tem uma forma peculiar de observar quem se aproxima demasiado.

    Entre recifes silenciosos e noites que parecem vivas, ela encontra um estranho objeto que não deveria existir. Um brilho impossível. Uma textura que arrepia. Desde esse momento, algo muda, no corpo, na mente, no próprio mar e em tudo o que a rodeia.

A cada passo, Camila sente que está a tocar num mistério que não é suposto descobrir.


Camila Tallas tem 24 anos. Nascida nos Estados Unidos da América, em Los Angeles, ela é filha de um pai grego e de uma mãe alemã. Formada na UCLA, em biologia marinha, depressa se destacou dentro da universidade com os seus trabalhos e pesquisas. Ela estuda e luta pela preservação de um peixe raro, o Black Tang. A viagem para a Polinésia tem como principal objectivo: ajudar a salvar da extinção esse animal e conhecer melhor os seus hábitos de vida.


O que será que o futuro lhe reserva? A viagem já começou e em breve ela chegará ao Taiti, a um mundo que já conhece, mas que nunca explorou de forma profissional. Estará preparada para esta aventura? Para a confiança que corpo docente da universidade depositou nela?

As viagens de avião, para já, são apenas uma parte dos seus problemas. 

Outros virão. Mas, apesar disso, vens connosco até à Polinésia?







sexta-feira, 6 de março de 2026

Ângulo Morto

 






Olhando pelos retrovisores eu vejo... 

Um passado mais perto do que parece.


Não é mais do que meras perspectivas.

Pontos de vista, contudo enganadores. 


Um ângulo morto pode ser perigoso

Nem tudo é visível de imediato, não.


É mais do que uma vida vazia, vã e sombria

Ângulos suplementares deste leito sem fim.


Esticando e alongando-se a perder de vista

Este é o ângulo raso que vamos percorrendo .


A estrada é longa e o horizonte nunca chega

Há que parar e descansar para não desanimar.


De pé, olhando a noite, a imensidão de estrelas

Percebemos o quão pequenos somos por aqui.


Ângulos complementares que se vão somando

Somos agora um ângulo recto, de fé e devoção. 


Alexandra Miranda, 21-01-2026

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Sobre viver.

Viver e estar vivo,

Tem peso e significado.

É passar a vida 

ou simplesmente desfrutá-la.

Implica estar VIVO,

mesmo quando a vontade falta.


Estar vivo é existência.

É respirar,

é rotina,

é subsistir.

Mas viver é sentir,

ter propósito,

é aprender,

é transformar-se.


Viver é experiência.

É intensidade que não se explica,

é render-se ao desconhecido,

é ensaio e erro sem aprovação.


Estar vivo exige recursos.

Sentir-se vivo exige coragem:

aceitar dores, abraçar alegrias.

É lembrar do que não se pode escapar.

E é nesse contraste

que descobrimos o que nos faz

SER além de EXISTIR.


Ericka Reis / 17.09.25



quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Balada da Neve

Batem leve, levemente,

como quem chama por mim.

Será chuva? Será gente?

Gente não é, certamente

e a chuva não bate assim.


É talvez a ventania:

mas há pouco, há poucochinho,

nem uma agulha bulia

na quieta melancolia

dos pinheiros do caminho...


Quem bate, assim, levemente,

com tão estranha leveza,

que mal se ouve, mal se sente?

Não é chuva, nem é gente,

nem é vento com certeza.


Fui ver. A neve caía

do azul cinzento do céu,

branca e leve, branca e fria...

- Há quanto tempo a não via!

E que saudades, Deus meu!


Olho-a através da vidraça.

Pôs tudo da cor do linho.

Passa gente e, quando passa,

os passos imprime e traça

na brancura do caminho...


Fico olhando esses sinais

da pobre gente que avança,

e noto, por entre os mais,

os traços miniaturais

duns pezitos de criança...


E descalcinhos, doridos...

a neve deixa inda vê-los,

primeiro, bem definidos,

depois, em sulcos compridos,

porque não podia erguê-los!...


Que quem já é pecador

sofra tormentos, enfim!

Mas as crianças, Senhor,

porque lhes dais tanta dor?!...

Porque padecem assim?!...


E uma infinita tristeza,

uma funda turbação

entra em mim, fica em mim presa.

Cai neve na Natureza

- e cai no meu coração.


Poema de Augusto Gil






terça-feira, 25 de novembro de 2025

Sentido

Amar é sonhar com a utopia.

Leviana, tal e qual ela deve ser. 

Estravazando o que vai no peito. 

Xebre paladar, ai, desta sociedade. 

Ajuizada, mas de valores fracos! 

Nada pode ser dito e pior, pensado. 

Demagogia dos tempos modernos. 

Revolução, oh... Que fraca amostra. 

Amar, assim, vai sendo proibido...


Será que tudo isto faz sentido?

Alexandra Miranda,  21-09-2025

Amar... 

Amar sempre fará sentido.

Maior virtude da humanidade.

Apesar dos flagelos da sociedade.

Resposta forte, para a alma, mudar!


Ericka Reis, 22-09-2025 

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Sombra vs. Luz


Olhando a rua lá fora, sinto-me arrepiar.
O vento sopra forte e a chuva cai sem parar.
Uma sombra que se adensa e torna a luz fugaz.
Envolve-me a escuridão e eu só queria ter paz.

As marcas do tempo, estão cravadas em mim.
Lembrando a cada momento que não foi o fim.
Eram tempos tão belos, da mais terna amizade.
Recorda-los agora só vão acentuar a saudade.

Todos os anos, é sempre a mesma a ladainha.
Sofrer pelo passado, mas a culpa não é minha.
Tentando ser forte, já nao sei mais como agir.
Tudo fica complicado pois só me apetece fugir.

Que poderei mais fazer para me sentir segura.
Sabendo que és a luz nesta noite tão escura.
Eu sinto-me como se estivesse em suspenso.
Cada dia vivido torna tudo ainda mais intenso.

Coisas simples que para outros não são notórias.
As lutas diárias que vou transformando em vitórias.
Enfrento as bruxas e os demónios até ao meu fim.
Que este seja um excelente dia de 'Halloween'...

Alexandra Miranda, 31-10-2025.