Saboreando a Polinésia - Capítulo 2
Maui ficou tão entusiasmado que os seus olhos brilharam e um sorriso enorme iluminou o seu rosto. Camila só conseguia rir; era contagiante aquela alegria dele. No seu íntimo, contudo, sentia que as coisas estavam a fluir rápido de mais… Bom, pelo menos para ele.
Chegaram à pousada já estava mesmo a escurecer. Maui fez questão de apresentar Camila à mãe como uma amiga e, por isso, foi convidada para jantar com o resto da família. Aceitou, mas pediu licença para ir até ao quarto tomar um duche e arrumar as coisas. Passou com a dona Mahina pela recepção, pegou na chave e seguiu para o seu aposento. Entrou, largou a mochila e a mala grande e pesada na entrada e, olhando em volta, percebeu, apesar da penumbra, como o quarto era todo em madeira envernizada brilhante; tudo era acolhedor e aconchegante. Tirou as sapatilhas e as meias, depois caminhou descalça pelo chão de madeira. Abriu as portadas e a luz do crepúsculo invadiu o quarto. Saiu para a varanda, ainda descalça, e as ondas quebravam ao longe; as águas calmas e ondulantes brilhavam apesar da pouca luz.
Apoiou-se no varandim, inspirou o ar puro e, apesar da ansiedade crescente, sentia-se bem, estava feliz. Voltando para dentro, foi tirando a roupa pelo caminho, primeiro as calças, depois a blusa e, por fim, o sutiã e as cuequinhas. Estava nua e pronta para o tão ansiado banho, mas quando se preparava para entrar no polibã, bateram à porta.
Enrolou-se na enorme toalha que estava na casa de banho e foi ver quem era. Colocou o batente de segurança, abriu ligeiramente a porta e viu Maui com um envelope na mão, que, sorrindo, lhe disse:
- Tenho um recado para ti. Deixaram uma carta para ti na recepção pouco antes de chegares, mas a minha mãe esqueceu-se de te dar. Espero não estar a incomodar…
Camila pôs a mão de fora para pegar no envelope e respondeu:
- Não incomodas nada, mas estava a preparar-me para tomar banho e não quero perder mais tempo para não me atrasar. Até já.
Despediu-se, fechando a porta atrás de si, e ainda enrolada na toalha foi sentar-se na beira da cama enquanto abria o envelope. As mãos ficaram suadas, a respiração acelerada e estava nervosa, porque não sabia quem lhe poderia ter escrito ainda antes de chegar.
Inclinou-se para acender a luz do abajour; com isso, a toalha caiu, deixando os seios descobertos, mas não se importou e logo começou a ler:
“Exma. Sra. Prof. Dra. Tallas, Camila.”
Riu-se com este início e ficou logo muito mais descontraída, já sabia quem lhe tinha escrito. Assim, em voz baixa, continuou a leitura:
“Espero que a viagem tenha corrido bem e que estejas bem também. O voo de ligação com a ilha de Oeno só pode ser efectuado no dia depois de amanhã, à mesma hora, isto porque houve uma pequena avaria no hidroavião.
No entanto, a montagem do abrigo e do laboratório continuará dentro dos prazos previstos e seguindo todos os planos de segurança que havíamos estabelecido.
Falamos em breve.
Ass.: Prof. Thomas :)”
- Com que então, um atraso... Será uma avaria grave? Espero que não… - Pensou Camila em voz alta, para logo continuar: - Ainda bem que tenho os meus colegas e amigos, Thomas e Elaine, na retaguarda a dar-me apoio. Seria bem mais difícil fazer tudo isto sem eles.
Como não havia mais nada a fazer, senão esperar, levantou-se e pegou na toalha para finalmente ir tomar o tão esperado banho.
Abriu a água fria e entrou devagar no chuveiro, sentindo o impacto da água fria na pele quente. Um arrepio percorreu-lhe o corpo inteiro, não só pelo contraste térmico, mas pela intensidade de tudo o que tinha vivido naquele dia.
Fechou os olhos.
A água escorria-lhe pelos ombros, pelas costas, pela curva suave da cintura, desenhando caminhos que a faziam estremecer. Respirou fundo, deixando que o som da água a embalasse. O coração, que ainda batia acelerado, aos poucos foi ficando mais calmo.
Encostou a testa à parede fresca do polibã e deixou-se ficar ali, quieta, sentindo o próprio corpo. As mãos percorriam-lhe a pele, como se quisesse memorizar cada contorno. Envolveu os seios, sentindo a sensibilidade aumentar, beliscou os mamilos duros, e um gemido escapou-lhe sem que conseguisse evitar.
Cerrou os olhos.
A respiração tornou-se mais pesada.
Sentia o prazer crescente dos seus toques. Devagar, deslizou as mãos pela barriga, descendo mais um pouco, chegou ao lugar onde o desejo se tornava quase palpável. Tocou-se. Ahhh… Um gemido… Depois outro… Foi-se tocando, lentamente, enquanto a água continuava a cair, sem parar.
Atingiu o clímax.
Endireitou-se, amparou-se na parede e deixou que a água fria lhe refrescasse o rosto. Lavou-se com calma, sem pressas, havia sido um dia longo, intenso e cheio de emoções. Quando terminou, desligou a água e ficou ali mais um pouco, no silêncio, sentindo-se em paz.
Saiu do quarto já pronta. Usava um vestido azul-esverdeado de alças finas; não era muito curto, ficava ligeiramente acima dos joelhos, mas era leve e vaporoso. Voltou a calçar as suas sapatilhas tipo bota, estilo All-Star, e colocou a bolsa, que havia comprado em Taiti, a tiracolo. O cabelo estava preso num rabo de cavalo, mais uma vez feito à pressa, pois era algo que não a preocupava. Isso ou a maquilhagem, até porque raramente usava e sentia-se muito bem com isso.
Caminhando pelo passadiço de madeira, seguindo o som das vozes e da música, chegou à área de refeições. Maui, ansioso, assim que a viu, veio ao seu encontro e, alegre, disse-lhe:
- Estás linda, muito linda… Espero que estejas com fome. A minha tia, que é a cozinheira, caprichou na ementa e vais poder deliciar-te com alguns dos nossos melhores pratos. Mas és tão magrinha que não deves comer muito.
Rindo-se, mas de um jeito meigo e terno, Maui pegou na mão dela e, puxando-a delicadamente, levou Camila até ao seu lugar. Sentou-se com ela e, como se já a conhecesse, esperou pela resposta que de facto chegou:
- Estás muito seguro de ti, não estás? - ripostou Camila, soltando a mão e olhando para Maui de um jeito intenso e intimidante.
Ele estremeceu atrapalhado, mas logo ela sorriu e continuou a conversa de uma forma bem animada:
- Pois fica sabendo que eu posso ser magrinha, mas como muito bem… Aliás, ficarias surpreendido com o que consigo comer… e sim, estou cheia de fome.
Queres matar-me do coração ou deixar-me louco, é isso? Adoro estar perto de...
Camila, tocando com o dedo indicador nos lábios de Maui, fê-lo parar de falar. Ficaram a olhar um para o outro, olhos nos olhos, até que ela pegou na mão dele e a apertou devagar. Mas quando ela ia dizer alguma coisa… a comida chegou.
Alguns dos hóspedes foram-se aproximando e sentaram-se também à mesa, isto porque as mesas de jantar eram comuns e a azáfama por isso era mais que muita. Com tudo isso, eles sorriram de forma cúmplice e encolheram os ombros; tinham tido um momento tão particular e secreto que até se esqueceram, por breves instantes, de onde estavam.
(Dona Mahina - 45 anos)
Logo a mãe de Maui, dona Mahina, se juntou a eles e começou a servir Camila, explicando os pratos e como era a sua confecção. Começaram a refeição por chevrettes, camarões preparados com leite de coco e acompanhados por uru, também designado por fruta-pão, assado na brasa. A combinação dos dois era óptima e Camila não se fez rogada; estava mesmo com fome.
Dona Mahina era uma alegria, e a maneira orgulhosa como falava das suas raízes e tradições era apaixonada e contagiante. Quando veio o prato seguinte, virou-se para a nossa bióloga e, num tom sério mas cúmplice, disse-lhe:
- O próximo prato é fafaru, um peixe marinado, durante umas horas, num líquido feito através da fermentação de caranguejos e camarões… Por favor, não ligue ao cheiro. Sei que é forte, mas, aparte disso, vai gostar do sabor. O peixe vem acompanhado de batata doce e mitihue, que é um molho de leite de coco fermentado.
Camila ouviu atentamente e depressa percebeu o porquê do aviso. À medida que outras pessoas, e também Maui, se iam servindo, o odor começou a fazer-se sentir. Serviu-se; o cheiro era de facto muito intenso e desmotivador… Isto sendo simpática. Mas, quando provou, percebeu que não havia ligação entre o cheiro e o sabor. Era delicioso, um pouco picante, mas macio e com uma textura suave.
Pelas suas expressões, dona Mahina e Maui perceberam que ela tinha gostado, e não se enganaram, pois logo ela o confirmou:
- Isto é muito bom. O cheiro… bom, o cheiro é parecido com peixe em decomposição… Mas o sabor é mesmo muito bom. Se o resto da refeição for assim tão bom, vou precisar de ajuda para me levantar da mesa.
Todos riram e continuaram a refeição de forma alegre e descontraída. Camila passou o prato de carne, de nome Ma’a Tinito, que era basicamente carne de porco com feijão, legumes e macarrão. Passou porque lhe pareceu ser uma refeição “mais normal” e também porque preferia comer peixe, e sabia que ainda viria um outro antes da sobremesa.
O prato seguinte era de facto um prato de peixe, bem tradicional: E’ia Ota, feito com Mahi-Mahi, um peixe oriundo da Polinésia, marinado em limão e leite de coco, com uma mistura de legumes picados. Esse prato, que fazia lembrar ceviche, era incrível de tão bom.
Dona Mahina pediu licença, saiu da mesa, recolhendo parte da louça, mas logo voltou com a sobremesa, de nome Po’e, ou Poke. Maui, chegando-se mais para Camila, disse-lhe baixinho:
Vais adorar isto, eu adoro. Poke é feito com banana, mandioca, baunilha e açúcar. Leva depois uma cobertura de leite de coco. Vês? É servido em pequenos cubos e é delicioso.
Estou a ver que sim - respondeu ela, apreciando o aspecto da iguaria. Quando finalmente levou um à boca, fechou os olhos: o sabor era divinal e a textura incrível. Depois do primeiro, pegou noutro e disse: - Estou a perceber porque gostas tanto. Parecem pequenos torrões de caramelo, mas suculentos. Que bela maneira de terminar a refeição. Adorei… aliás, adorei tudo.
Ainda bem que gostaste de tudo. Estava com algum receio, mas ver-te comer com tanta satisfação deixou-me contente. Queres mais alguma coisa? - perguntou Maui, atencioso, levantando-se da mesa e estendendo-lhe a mão.
Camila pegou na mão dele e, levantando-se também, respondeu:
Um café expresso. O que queria mesmo era um café expresso quentinho. Bom… e, ao que parece, nós tínhamos um cafezinho combinado, ou quase…
Rindo-se, Maui puxou-a delicadamente e disse:
Nós temos uma máquina de café expresso. Por isso, que dizes a pegarmos no café e sairmos para dar uma volta à beira-mar?
Acho uma ótima ideia. Estou a gostar imenso de estar aqui e até a minha ansiedade, que estava bastante elevada, está aos poucos a passar. - Camila respondeu.
Saíram dali caminhando pela beira da estrada, devagar, aproveitando a noite ainda quente e sentindo a brisa marinha. Não havia ondas, apenas uma leve ondulação e, olhando o mar que brilhava com a luz da lua, conversavam sobre as suas vidas. Contavam como tinha sido a infância, que sonhos tinham e como foi crescer em meios tão diferentes.
Camila contou como foi sair, aos quatro anos, dos Estados Unidos para ir para a Grécia. Foi lá que fez a primária, para depois, aos dez anos, mudar-se para a Alemanha e fazer por lá todo o secundário. Contou que a vida, por isso, não tinha sido fácil: primeiro porque deixou amigos, e depois porque as línguas de ambos os países não eram fáceis de aprender.
Disse que, apesar de só ter vivido quatro anos na América, nunca tinha perdido a ligação ao país. Por isso, quando acabou o secundário, aos dezassete anos, decidiu inscrever-se na Universidade de Los Angeles sem que os pais soubessem. Quando os resultados saíram, e uma vez que a sua nacionalidade era de facto americana, não foi com grande surpresa que leu que a sua candidatura tinha sido aceite e que teria uma bolsa de estudo.
O problema, esse sim, era contar aos pais e, como ainda era menor, conseguir que aceitassem a sua mudança para lá.
Maui, espantado, deu duas passadas largas, passou-lhe à frente e, com um sorriso de orelha a orelha, virou-se para trás dizendo:
- Uau! Dá para perceber que és uma mulher decidida… Como convenceste os teus pais?
Eu, quando me proponho a fazer algo, sou inabalável. Não desisto nem dou nada como garantido. Mas essa história vai ter de ficar para outro dia... - Mudando de assunto, Camila continuou: - Já devemos estar bem longe da pousada, não?
- Temos vindo devagar e, por isso, não estamos longe. A verdade é que a noite está bem quente. Podíamos parar por aqui e ir dar um mergulho. Que dizes?
- Que não tens de repetir. Vamos! - Mal tinha acabado de falar e já ela disparava a grande velocidade, deixando Maui estupefacto para trás. Recompondo-se, ele correu atrás dela.
Pareciam duas crianças, rindo e correndo pela orla marítima. Lá à frente, via-se, por entre a vegetação, um barco de madeira ondulando suavemente no mar, preso a uma estaca. Chegaram com as sapatilhas encharcadas, por correr na água rasa. Tiraram a roupa à pressa e deixaram tudo dentro do barco.
Maui não conseguiu evitar: parou para admirar toda a beleza de Camila, que, de biquíni azul-turquesa, revelava um corpo extraordinário. Apesar de magra, tinha braços e pernas bem musculados, abdominais definidos, seios cheios e glúteos firmes e bem torneados. Percebendo como ele a olhava, soltou e sacudiu o cabelo, ajeitou a parte de cima do biquíni e, virando-lhe as costas, caminhou mar adentro. A intenção não foi provocá-lo, mas, com estes gestos Maui, que já estava encantado, ficou ainda mais deslumbrado.
A água estava quente. Camila avançava devagar, deixando-se molhar, atenta a tudo à sua volta, até que parou. Maui alcançou-a e, ao olhar para ele, ela apercebeu-se de como já estavam longe do barco e da costa. Como Camila não disse nada, foi Maui quem quebrou o silêncio:
- Afinal, que trabalho vens fazer aqui na Polinésia? Ficaste tão concentrada e calada de repente… estás com medo?
Camila riu-se com vontade, mas ignorando o seu jeito dengoso, respondeu:
- Não te preocupes que não é contrabando. - E, num ápice, respirou fundo e mergulhou, desaparecendo da vista de Maui.
Ao vê-la desaparecer num mergulho preciso, ele tentou adivinhar onde iria emergir. Deu dois passos em frente e percebeu porque razão ela tinha parado ali: mais à frente já não havia pé.
O tempo foi passando e nada dela aparecer. Gritou o nome dela, uma, duas, três vezes…
Angustiado e inquieto, nadava em círculos e submergia de vez em quando, na tentativa de a encontrar. Decidiu voltar ao barco e procurar ajuda. Começou a nadar de volta, transtornado. Mentalmente, não conseguia deixar de se recriminar por ter acontecido algo assim:
- Ela não conhece a área. Mas a água não é profunda. Não devias tê-la deixado ir sozinha. Eu não a deixei, ela só mergulhou e desapareceu. Ela parecia saber nadar…


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